A orelha

Por: Everton de Paula

Um caso muito estranho aconteceu no ano de 1956, numa manhã fria de junho, na pequena cidade de C... Evangivaldo Barbosa (conhecido por Ivan pelos mais sérios, e Barbosinha pelas menos sérias da periferia quase rural), ferroviário, levantou-se, como sempre, muito cedinho para ir trabalhar na estação de trem de sua cidade. Ainda na cama, aquecido, meio desperto, sentiu logo o cheirinho de café fresco e pão-de-queijo assado na tampa do fogão de lenha. As maritacas faziam um barulho danado na calha do quintal, anunciando dia nebuloso, frio. Acordava com enjôo e dor de cabeça. Mas também, o que bebera de cachaça na noite anterior, pondo a culpa no frio e com a desculpa de se aquecer, não era brincadeira. Foi pra cama tonto feito um gambá, e nem se lembrava muito bem do que fizera ou falara antes.

Pulou da cama, antes de vestir-se foi ao banheiro, lavou a cara, enxaguou a boca, fez lá suas necessidades primeiras e vestiu-se rapidamente para se aproximar da quentura do fogão. Amélia, sua mulher, limpava as mãos no avental e, meio que pálida, balbuciou alguma coisa sobre o filho menor que teria tido febre à noite. Evangivaldo vamos tratá-lo logo por Ivan, como os mais sérios, para ganhar espaço e tempo -, pois bem, Ivan esfregou as mãos quase sem senti-las e foi abocanhando os pães-de queijo com o moca coado há pouco. Amélia lavava uma panela de alumínio, com força, indiferente ao proseio de Ivan. Este apenas pensou rapidamente se ela desconfiava de alguma coisa relacionada à pequena Solange “pequena” é modo de dizer, pois que Solange era um mulherão de pouco mais de metro e meio, recém-chegada à casa da tia e enrabichada com Ivan, às escondidas, já fazia alguns dias. Agora o pão-de-queijo desceu mais seco, Ivan levantou-se, foi ao espelho do quarto, repartiu o cabelo ao meio, penteou com pente fino o bigodinho de safado e, antes de colocar o boné de ferroviário, botou os óculos na cara, pois que nosso homem era míope a perder de vista.

Botou os óculos, e os óculos caíram ao chão.

Ivan estranhou a bobeira.

Pegou novamente os óculos e os botou na cara, para caírem outra vez ao chão.

Ivan prestou atenção em sua imagem no espelho.

Levou um baita susto quando viu que lhe faltava uma orelha:

- Mas o que é isto, onde foi parar minha orelha?

O trem que vinha de Uberaba apitou lá longe, na primeira curva. Era o primeiro sinal de atraso ao serviço, tão prezado por Ivan, pontualíssimo, nunca faltara uma única vez ao seu guichê. Com cara de “meu-deus-que-é-isso” mirou-se de novo no espelho e gritou como um bezerro assustado:

- Amélia, cadê minha orelha, que é feito dela, pelo amor de Deus!

No lugar da orelha direita, sem sinal de sangue, apenas um tampão de gaze, algodão e esparadrapo por cima. Tudo dobrado e arrumado grosseiramente.

Amélia, essa, já acostumada com as esquisitices do marido, deu de ombros e continuou na cozinha.

O trem apitou outra vez. Era o segundo aviso. Como os tempos eram difíceis, mais difícil ainda seria manter o emprego com faltas. Com ou sem orelha, Ivan optou por sair correndo em direção à estação de trem. O uniforme já estava vestido, o boné no lugar, mas não havia jeito de os óculos permanecerem no lugar. Ficavam assim tortos, presos pela orelha que restara, fazendo com que Ivan enxergasse apenas pela metade pessoas e coisas que lhe apareciam pela frente.

Chegou à estação no terceiro e derradeiro apito do trem, na hora exata de vender os bilhetes para os passageiros com destino a Franca. É claro que Ivan estivesse atordoado, mas nem dor sentia, talvez devido ao frio desgraçado que fazia naquela manhã. As pessoas o olhavam de lado, com receio e um pouco de asco diante daquela ausência na cara, aquele vazio que tanto incomodou o chefe de estação. O trem bufou e seguiu viagem. O chefe logo veio ao guichê e perguntou com as mãos na cintura:

- Senhor Ivan, onde está sua orelha? como se perguntasse sobre algum objeto como “onde está seu boné”, ou “cadê seu fura-bilhetes”.

Evangivaldo não soube responder. O chefe achou que fosse caso de polícia. Dispensou Ivan do serviço e este, meio que sem graça, segurando com uma mão o boné que teimava em escorregar pelo lado da face sem orelha, e com outra mão segurando os óculos, dirigiu-se ao delegado.

Contou o caso tim-tim-por-tim-tim. O delegado, já sessentão, beirando a aposentadoria, muito experiente em seus assuntos, manco mas honestíssimo, foi logo tratando das preliminares:

- Rapaz, o que você andou aprontando?

- Eu, seu delegado?! Nada, apenas umas pitibiribas ontem à noite...

- E com quem você estava?

Evangivaldo nem de longe poderia imaginar que o homem da lei sabia muito bem de seus pula-cercas com a tal de Solange.

Mandou chamar a mulher, a Amélia.

Esta deixou o filho menor com a vizinha e se dirigiu à delegacia.

Antes que dissesse alguma coisa, o delegado foi logo dizendo:

- Era outra coisa que a senhora tinha de cortar, dona Amélia, era outra coisa!!!

Amélia baixou os olhos e não deixou escapar uma lágrima sequer. Evangivaldo levou imediatamente as duas mãos à sua genitália, com os olhos abertíssimos. Nem foi necessária confissão alguma, porque não houve queixa formal. Tudo esclarecido. E se dor não houve ou não foi sentida, talvez o frio da madrugada e a cachaça explicassem muita coisa.

Os óculos? Como eles pararam no lugar? As más línguas dizem que Evangivaldo colocou uma rolha no buraco auditivo esquerdo para servir de suporte à haste. Eu não acreditei nessa versão, porque homem que é homem não usa rolha em cavidade alguma... Que iria dizer Solange? Aliás, dizem também as mesmas línguas que essa mocinha (um mulherão de metro e meio!) fugiu com um trapezista de circo. Dizem mais: que enquanto esse novo par fazia acrobacias inarráveis na cama, Evangivaldo sossegou o facho, deixando para as locomotivas o bufar de um touro indomável.

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