Infância

Por: Eny Miranda

A infância é um lugar. Descobri isso recentemente. Um lugar que está sempre à nossa espera, mas que não consta de mapas; dribla quaisquer tentativas de localizações geográficas, quaisquer projetos de trabalhos cartográficos. Não há GPS que, à base de frias programações, possa localizá-lo e nos guiar até ele. Infância é uma área sem latitudes ou longitudes, sem limites, sem fronteiras, sem definições espaciais... e sem tempo.

Invisível aos olhos do mais avançado satélite, abre, contudo, portas e comportas e paisagens e intimidades, alegrias e melancolias, escancara espaços e histórias de vida a um olfato distraído, a um ouvido desarmado, a um olhar desavisado, a certas manifestações de espírito alheias à nossa frívola vontade e à nossa pobre cognição.

À visão adulta, esse claro enigma parece ter sido, no passado, base para estabelecimento de futuro; no presente, é registro, arquivo, catálogo do que já se foi. Contudo, a Infância despreza o tempo como o conhecemos, atrelado a rotações e translações; a medições de ângulos e curvaturas; a giros de ponteiros, coisas pueris de gente grande. Transcende dogmas, leis, teorias, axiomas, criações próprias da presunçosa maturidade.

A Infância é, está, continua. Pulsa e respira. Vive. Suas águas correm continuamente nos rios, sob o céu, sob as folhas indolentes dos salgueiros, sobre os seixos limosos de um leito eterno; ou agitam-se nos oceanos, atiram-se sobre as areias das praias e a dureza das pedras, salgando o ar e espumando o vento. Suas cidades são. Passeamos em suas ruas, aspiramos o perfume de seus jardins, corremos atrás de suas borboletas...

Outra descoberta: este lugar chamado Infância movimenta-se no tempo e no espaço. Pode sair de onde está e aparecer diante de nós, quando menos esperamos. Sua matéria - se é que se pode denominar matéria o que é de natureza puramente mnêmica, espiritual, anímica - viaja, espaço afora, emoção adentro, teletransportada ou abduzida por alguma força desconhecida.

Eis certos domingos, passados na praia ou na Quinta da Boa Vista. Eis as palmeiras recortando as cores do crepúsculo, os barquinhos sumindo entre as ondas... ou as baianas, com suas blusas imaculadamente brancas, suas amplas saias e suas rendas, abrindo mesas nos gramados e exibindo cocadas, quindins, quebra-queixos, deliciosos cuscuzes de tapioca e coco ralado. Eis nossos sonhos e fantasias, nossa inocência.

Eis nossos pais e nossas mães, jovens, presentes, atentos, amorosos, ad aeternum.

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