“A eternidade é agora”

Por: Maria Luiza Salomão

A frase está no livro Isso és tu, de Joseph Campbell. Ele conta que estava em um casamento e ouviu o padre dizer a um jovem casal sobre a necessidade que vivessem bem, para garantirem a vida eterna.

Campbell adverte para o perigo de tomar as metáforas de modo literal, concretamente. Vida eterna é uma metáfora. O casamento, ou qualquer acontecimento, se intensamente sentido, pode substancializar a eternidade no agora, consigo, comigo. Pode remanescer um suco inolvidável, um it.

Podemos transformar o agora em arte: imortal, atemporal, sem fronteiras. Percepções criadeiras se afogam no costume, no hábito, por preguiça, enfado, indiferença, angústia, pedantismo, perversão.

O grande perigo na religião, na ciência, na racionalidade excessiva e rígida, no pragmatismo é tomar o sentido dos acontecimentos em sua materialidade.

As intensidades emocionais realçam o momento, mas urge a capacidade de metabolização simbólica, alcançada no processamento psíquico delas. Urge embalar, emoldurar o instantâneo fugidio, forjar a imagem simples com legenda curta. A memória, então, registra o instante, que se aninha na alma.

Tenho eternidades acumuladas: o nascimento de minha filha e o do meu filho. Ela não chora ao sair da barriga, arregala os olhos a investigar o novo ambiente; ele sai a gritar, sob protesto, o pai o chama para fora, conversa de homem para homem. Vejo, pela primeira vez, a aliança brilhando na mão direita do meu marido em um raio de luar. Noite de noivado, troca de alianças na casa dos meus pais, em Franca. Voltamos ao trabalho em Ribeirão Preto: o silêncio noturno na viagem, os noivos a sós e mudos, de mãos dadas, os faróis a descortinar sonhos, família nova a caminho depois da curva, em frente. Ternura luminosa na alma. A lua cheia, a alma plena.

As amizades em gestos sagrados. Fazer comida, juntas, arroz branquinho, um bife que só Osmália sabia fritar, e salada de alface com tomate, no intervalo do trabalho companheiro. A descoberta de um mundo novo, na primeira visita ao pequenino quarto de Alda, a desvelar sua alma: pequenos objetos no chão, nas paredes, pendurados, trazidos da rua, do mato, da imaginação vivaz: seus olhos diamantes negros a luzir. Duas adolescentes, eu e Teli, a atravessar noites, estudando e trocando confidências. A carioca que amadrinho o casamento. Regina, a paulistana, me carrega de pé quebrado, não me deixa sozinha no meu sobrado da Vila Madalena. As cartas trocadas, em francana amizade madura, gerando galáxias invisíveis a olhos distraídos. O amigo Pedro, paulistano que canta triste despedida, toca veludosa clarineta, na minha mudança São Paulo-Ribeirão Preto. A prima toca Chopin, ao piano, em Ituverava. Na biblioteca do padrinho, leio as Mil e Uma Noites. Horas de cinquenta minutos misteriosamente inscritas no meu coração.

Eternidades existem, eu as sinto agora, presentes sem fim.


Maria Luiza Salomão,
psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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