A aventura dos pelados

Por: Everton de Paula

Corria a ano de 1954, finzinho de primavera. A extrema doçura dos ares da pequena Cristais Paulista era cortada pelo silvo estridente da Maria Fumaça, a velha locomotiva da Mogiana que, tendo largado da estação do Cipó, lá em Sacramento, dirigia-se para Franca, com pequena parada em Cristais.

Quatro da tarde. A complicada engrenagem da máquina negra vomitava fumaça branca, deitando a névoa pelo piso de laje da estação de trem de ferro. A criançada, em bando, corria entre passageiros que tentavam esticar pernas e braços durante a parada. Passando de janela em janela, o vendedor de pastel sabia que aquela era a última venda do dia. E esforçava um sorriso enquanto oferecia o salgadinho, mas de olho na meninada que pouco custava um deles vir correndo e afanar um daqueles estraga-jantar.

Um trilo de apito, um sinal verde, as pequenas rodas dianteiras de aço patinando sobre os trilhos luzidios... E a geringonça começava a mover-se lentamente no meio da fumarada, agora com destino a Franca. O alarido na estação aos poucos se acalmava. Cada qual pro seu canto. Mas a meninada ainda haveria de permanecer junta. Tinha uma reunião na pracinha com o guarda Orlando Guerra.

- Que será que ele quer dessa vez?

- Sei não, mas seu Orlando é de paz. Vai querer atazanar a gente não!

- Quem mandou você quebrar a vidraça do bar do seu Manolo?

- Será que é isso? Uma estilingadazinha à-toa!

- É claro que é, sua besta, que outra coisa a polícia vai querer da gente?

- Xiii Minha mãe vai esquentar minha bunda!

- Com mãe a gente até dá um jeito, elas é mole de coração. O duro é pai!

Com efeito, os pais daqueles garotos de Cristais, na época dessa história, eram osso duro de roer. Bravos, sérios, cansados da labuta diária, não tolerariam uma lição de casa mal feita e reclamada pela professora, quanto mais uma vidraça quebrada.

Tinha jeito não. Era enfrentar o guarda ou ir direto para a pua.

A trinca seguiu passo miudinho querendo-não-querendo chegar. Da estação de trem até a praça era um pulinho. O relógio da igreja batia a meia hora das quatro da tarde. O guarda Orlando Guerra já estava sentado perto do coreto, girando o cassetete no ar. Mau sinal! Guarda com nome de guerra, já se viu?

Ressabiado, mãozinhas para trás, peito estufado e fingindo valentia misturada com indiferença, Bepo foi logo perguntando:

- Oi, seu Orlando! Que é que o senhor quer com a gente?

- Oi, meninada, nada de muito sério não. Tenho um servicinho que vocês até vão gostar.

“Servicinho?! Lógico, era alguma coisa para compensar a vidraça quebrada do seu Manolo. Limpar o chão, varrer a calçada, empilhar as garrafas vazias no fundo do quintal... Tudo bem, desde que a notícia não chegasse ao pé do ouvido do pai”, era o pensamento mais ou menos igual da gurizada.

- Pois é, - continuou o guarda Orlando vocês têm nadado muito no corgo da fazenda do major Moura Matos, ali quase embaixo da cachoeira. Eu tava pensando que a gente, isto é, vocês, poderiam melhorar o local. E o jeito mais simples é estancar um pouco a água, de modo a aumentar o poço. Fazer um pequeno açude, uma represinha... O calor está chegando e enquanto vocês estiverem lá, nadando com segurança, eu sei que não vai ter nenhum problema aqui na praça e na cidade. Eu vou lá ajudar vocês. O que acham?

- ...!

- ...?

- Mas e a vidr...

O menino que ia começar a pergunta nem terminou de dizer coisa alguma, depois do tapa que levou na orelha. Que vidraça que o quê! Represar o córrego da cachoeirinha era mais do que um sonho. Era se livrar de um castigo para entrar no céu. Quer coisa melhor que essa?

Do espanto nasceu a alegria; contentamento geral. E ia ficar mais fácil para as vaquinhas e seus bezerrinhos beberem água fresca. Marcaram para sábado à tarde, quando não haveria aula no grupo escolar. Duas da tarde, tá bom? Tá!

Passou quinta, passou sexta, passou o trem, passou nuvem, passou o vendedor de pastel, chegou sábado. A comida do almoço mal descia garganta abaixo. Mãe desconfiada só olhava de rabicho, mas nada perguntava porque, mais cedo ou mais tarde, criança conta mesmo.

A trinca marcou encontro na pracinha. Dali rumaram para o córrego da cachoeirinha. Entraram na fazenda do major, mas por debaixo do arame farpado, bem cá no pé do morro, beirando o riachozinho que corria mansamente, de modo a espelhar as nuvens de quase dezembro.

Ih, mas estamos ainda na metade da história, “caso acontecido mesmo”, me garante o narrador. Só que o espaço terminou. Continuo no próximo sábado.


Everton de Paula,
acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos

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