A aventura dos pelados (II)

Por: Everton de Paula

A aventura dos pelados (II)

Então, agora é continuar, não é mesmo?

Pois bem!

Urubu gazeteava no ar, bem-te-vi lavadeira, desconfiado, ia pulando de galho em galho só pra ver no que ia dar aquela história. Vez em quando soltava um estridente “te-viii”, deixando claro que era testemunha do caso.

Passa pasto, passa boi, passa boiada e, na pressa, ó! Esqueceram até de apanhar goiaba madurinha da árvore. Perfume de gabiroba, o mato ralo espetando o pé da gente, o passo de apertadinho virou corridinha...

O guarda já estava no lugar. Uma mão segurava o quepe, outra enxugava o suor da testa, com um lenço encardido.

A meninada foi logo perguntando o que fazer, mas o chuá da cachoeira não deixava ouvir direito. Seu Orlando foi explicando que todos tinham que cair logo no corgo (que ordem mais besta, sô, era como pedir a uma criança fazer o sacrifício de chupar picolé de graça!). Depois que todos estivessem no poço, cuja parte mais funda dava pé até para o menos da turma, eles iriam à forquilha d’água e ali colocariam pedras, entulhos, o que pudesse para reter a fluência do córrego e manter o poço mais quieto, mais fundo, mais prazeroso...

Um vento esquisito curvou o bambuzal sobre o poço. Bem-te-vi não gostou da coisa e logo cismou armadilha. Mas como criança não vê diferença alguma entre maravilha e armadilha, foi logo se preparando para cair na água.

Meu querido leitor, não sei se você já nadou em córrego ou lago quando era criança, mas isto lá nos anos 50. Nessa época, a criançada costumava nadar sem roupa alguma. Era chegar, tirar a camisa, a calça curta e tchibum bunda pelada na água! A vantagem era que depois a roupa estava sequinha.

E assim foi. Todos pelados caíram no corgo da cachoeirinha da fazenda do major Moura Matos, no último sábado de novembro de 1954, no município de Cristais Paulista. Caíram, deram duas ou três braçadas, um caldo no menor da turma, e procuraram com os olhos o guarda Orlando, que ficara ali na margem para dar as ordens.

Mas... Cadê o guarda Orlando?

Epa! Pera aí! Cadê também as roupas? As calças, meu Deus, as calças!

Pronto, a armadilha dera resultado. Num só golpe, o guarda tinha todos os meninos pelados “presos” no córrego.

Para entender esta situação, é bom também que o leitor saiba que o major Moura Matos já estava de saco cheio de tanto que a molecada vinha nadar no seu córrego. Reclamou para o Juizado de Menor que dera ordem para a dona Aparecida, representante da autoridade na cidade, para acabar logo com essa algazarra. Dona Aparecida levou queixa ao delegado e o delegado mandou o guarda Orlando, o único guarda da cidade, pegar a meninada em flagrante delito.

Guarda Orlando agora era outro, diferente daquele fala-mansa. Era autoridade policial. Falou grosso, lá na margem sequinha:

- Aí, meninada sem-vergonha, bagunceiros. Agora vocês vão sair do poço e ficar em fila aqui na margem.

Que situação! Os meninos, vexados com suas intimidades assim expostas, postaram-se um ao lado do outro, em fila indiana, aguardando. Seu Orlando deu ordem de guerra para que todos marchassem até a sede da fazenda, que ficava perto dali. Os meninos seguiram quietos, pelados, molhados, envergonhados, literalmente desarmados para qualquer reação, com a pele cortada pelas folhas de erva cidreira e outras mais afiadas que havia no caminho. E a situação ia piorando.

Seu Orlando os colocou num curral vazio, empesteado de esterco. Os pezinhos descalços chafurdavam na porcaria, enquanto as pequeninas mãos tentavam esconder o de trás e o da frente. E a situação só piorando. Vamos lembrar que na época não havia nem sinal dos chamados direitos humanos, imaginem então “direitos de criança”!

Chegou o capataz, homenzarrão de cara vermelha e bigode de bandido mexicano. Falou, tresfalou, voltou a falar... Mas não encostou um dedinho sequer em menino algum, porque (poucos sabiam), tinha um coração de ouro. Gostava daquela meninada. Mas a situação ia piorar.

Assim pelados, o guarda ordenou que os meninos, assim em fila, se dirigissem à cidade.

- Sem roupa?

- Na praça?

- Chegar em casa sem roupa?

- Ai, meu jesuscristinho, me salva dessa!

- Chega de lamentação, - berrou o guarda. Vamos logo embora. Vou entregar cada um de vocês em suas casas.

Olha, nem a procissão dos prisioneiros molambentos da Guerra de Canudos foi mais dramática. A cidade parou. Os meninos iam se arrastando junto às paredes, enfrentando a chacotice geral...

Quem estava me contando esta história era o Vicente de Paula Silveira. Ele jura que era um dos meninos na ocasião. Nem esperei pelo final, pois que a imaginação do narrador já é por demais conhecida pela prodigalidade. Que mais poderia acontecer àqueles pobres meninos?

- Ih! diria o Vicente, - o pior estava por acontecer!

Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos

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