Jardim: entre o imaginário e o real

Por: Valéria Carrijo Tasso

A construção da realidade implica em um mundo que pode ser falado com as palavras fornecidas pela linguagem. O que não pode ser dito na sua linguagem não é parte da realidade, não existe...” (Luckmann e Berger, 1985-2010)

Um sonho acalentado muitas vezes torna uma realidade distante. Minha casa era um porto de vivência seguro e iluminado. A certeza disso era pelas respostas constantes que recebia, ora de pessoas, ora de meus filhos, ora de meus animaizinhos de estimação. Sentindo afeição pelos meus filhos, pela natureza e pelos animais, propunha construir um jardim na parte detrás de minha casa.

O espaço era acalentador provocando em meu ser sonhos. Pensava em flores miúdas, plantas exuberantes, fonte de água, caminhos de cascalhos, gramados, arbustos, coelhos, jabutis, araras, tucanos, beija-flores, gatos, cão, enfim seres e objetos animados ou não que embelezariam ou formariam esse jardim. A ideia vinha simples. Porém, os acertos com meus sonhos iniciaram um processo de impossibilidades e meios complicados. Os sonhos acalentados que pareciam tão reais se tornaram meu imaginário.

Tentei entender os porquês. Afinal, era tão simples conseguir realizar esse sonho: um jardim. Minha saúde mental e espiritual comprometeu essa ideia. Não pude sentir realidade possível nesse sonho. Jardim, para mim, era minha fortaleza, fazia parte de meu ser, de meus desejos. Pertencia a mim, entre o que era real, guiado pela minha razão, e imaginário, minhas emoções e desejos.

Quando penso no passado, na desconstrução da realidade a ser vivida, reflito sobre o significado disso tudo. Minha vida, meu ser, meus filhos, minha profissão, enfim o que resume minha pessoa é um “jardim em construção.” Então, entre o que é real e imaginário está o processo enfim de desejar, objetivar, planejar e fazer do presente uma constante em minha vida. Plantar, semear, colher, extrair as ervas daninhas, construir, formar, buscar, e envolver coisas e pessoas, é um todo real que sobrepuja o imaginário, o nosso subjetivo: desejos, sonhos e sentimentos, quando estes, se tornam, por vezes, impossíveis de realizar, de entender ou dizer pela linguagem.

Valéria Carrijo Tasso, Doutora em Serviço Social pela UNESP

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras