Um homem, uma mulher

Por: Maria Luiza Salomão

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Um filme quase cinquentenário! E, no entanto, não é datado. Oscar 1967 de Melhor Filme Estrangeiro, e de Melhor Roteiro Original, Claude Lelouch teve a ideia para o filme na praia de Deauville, ao ver uma bela mulher brincando com a filha.

Durante a filmagem, Anouk Aimée, atriz que se imortalizou em quase lenda cinematográfica com o seu desempenho no filme, apaixona-se pelo ator Pierre Barou que faz o marido do qual ela enviúva, e que aparece em fragmentadas cenas, em flashbacks. Os dois atores se casaram após as filmagens. Pierre Barou canta Vinicius de Moraes, Samba da Bênção, ao violão, “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração (...) mas prá fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza, ...senão não se faz um samba não...”. Jean-Louis Trintignant é o viúvo, ternamente envolvido com seu filho pequeno.

Há uma naturalidade charmosa no filme, verdadeira bossa-nova cinematográfica, que desarma: o encontro de dois seres, naquela dificuldade, que sabemos reconhecer, em elaborar as perdas, em enterrar o passado, para começar uma nova vida. Simples assim, como se diz. Mas qualquer encontro humano pede a sofisticação do balanço, do chamego, da abertura nem sempre disponível dos afetos. Como diz Vinicius, na música: “a vida não é brincadeira, / é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida...”

Observo nas quebradas da vida... quem teve um relacionamento verdadeiro, íntimo, intenso, está pronto para novos relacionamentos. Paradoxal? Muitas pessoas creem que um amor não possa ser esquecido. E não é, nem esquecido, nem substituído. Quem ama para valer, é capaz de amar novamente. Alguns talvez não necessitem um novo amor, ou não consigam encontrar, em uma só vida, outras oportunidades para amar.

Às vezes, a pressão da sociedade pode ser cruel e hipócrita em sua vigilância, mesmo no século XXI. Como se um viúvo, ou viúva, amorosos, tivessem que morrer com quem se vai. E, no entanto, embora um grande amor (ou mesmo pequeno) nunca seja esquecido, nem substituído jamais, a capacidade de se manter poroso ao encontro é a de uma terra lavrada, fértil, apta a quaisquer sementes.

Quem nunca foi capaz de se entregar, e se recusou a confiar no outro; quem não foi capaz de compartilhar e não aprendeu com outros amores; quem se fechou em guarda, em si, e não foi capaz de amar uma vez, não ama duas vezes, não ama, ponto. Amar se aprende amando, diz Drummond, e isso demanda maturidade, experiência bem vivida.

Pode até ser que não se queira, ou não se consiga, amar de novo, e que o amor antigo se faça presente, vivo. Mas onde se plantou uma árvore, planta-se uma floresta. A alma é ávida de encontros e, quanto mais capaz, mais capaz se torna.

Simples assim, complicado assim. Claude Lelouch tem o dom de jogar pó de pirlimpimpim nas asas de Eros. O diretor usa de cores em cenas externas, e branco-e-preto nas cenas internas, o que pareceu, na época, uma inovação artística. Muitos concordam que o branco-e-preto revela a essência da forma, no caso, a essência da alma. Uma foto em branco-e-preto parece mais íntima e verdadeira, real, do que a colorida, como se cor fosse um acidente, um acessório. Lelouch nos diz que sua opção se deu por motivos econômicos. E a gente ri, sabendo que a Arte produz esses felizes acasos, quando é verdadeira arte.

Quem ama tolera o mistério do encontro e desencontro, aceita o paradoxo do para sempre, para nunca mais. Tolera não saber por que ama, ou por que sente necessidade de amar. Tolera a difícil dependência evocada pelo desejo; a angústia de descobrir o que não supunha sentir, fazer; querer fazer, querer sentir. Tolera o “infinito enquanto dure”(Vinicius). Não se encontra o mesmo outro sempre. Nem nos coincidimos, em um só dia, outro que somos para o mesmo eu, em móveis nuvens.

O filme retrata, sutil, a vida que se processa fragmentária, a costura invisível de Eros que, de outra maneira, tornaria a vida sem sentido, sem significado, sem cores, sem vida.

Ele (Jean-Louis Trintignant), viúvo e com filho pequeno, piloto de corridas de automóveis, monologa consigo mesmo sobre um desencontro amoroso recém-acontecido com ela. Ela (Anouk Aimée), viúva com uma filha pequena, roteirista de cinema. A cena: os dois na cama, de repente, esfriam, estranham-se. Ela relembra o marido morto... os dois fazendo amor...o primeiro que experimentam... rompe-se o contato corpo a corpo... mas não o diálogo interno de cada um. Ele se pergunta: o que ela quer? Ela chora, olha sem ver através da janelinha do trem, ela saberia?

Eros pode responder. Lelouch não responde: cria janelas, cria ouvidos para o silêncio da poesia amorosa, cria antenas anímicas para o inexprimível.


O cineasta

CLAUDE LELOUCH

Un homme et une femme rendeu uma bilheteria assombrosa pelo mundo todo. A trilha sonora, de Francis Lai, mostra a importância da música no cinema. Não há quem não cantarole, acabada a sessão...“uábadabadá...uábadabadá...uábadabadá...”. A naturalidade dos atores, Lelouch seguro como cameraman, a fotografia inesquecível, diálogos marcantes, que fizeram muitos aprender francês.

Quando o psicanalista Nílton Bianchi o sugeriu para o evento Cinema & Psicanálise (hoje, 15h, Centro Médico), vi dois outros filmes do diretor: Toute une Vie, 1974, e Esses Amores, 2011. Neles tembém, reconheci a verve do diretor que causou impacto, às vésperas do ano indefectível, 1968, que fez desse filme um ícone para jovens revolucionários.

Atualmente, o sexo parece não causar, na gíria adolescente. Observo que se fala e se ocupa de modo excessivo com o corpo (ginásticas, cirurgias plásticas, dietas) e pouco com o uso do corpo erótico, que não é somente físico, sexual, mas envolve a emoção, a fantasia. Sinto que esse velho filme pode causar um frisson novo - em jovens que parecem velhos entediados; em gerações amadurecidas, que ajudaram a criar esse mundo sexualmente mais livre. Quem sabe Eros desperta, todos, para o que queima por dentro...que não tem governo...que não tem remédio...que não tem receita...o que será que será?

Filme

Título: Um Homem, Uma Mulher
Lançamento: 1966
Duração: 1h 42min
Direção: Claude Lelouch
Gênero: Romance

Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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