Divórcio: o trauma da separação

Por: Maria Fernanda Rodrigues

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Ricardo Lísias acorda um dia e se lembra de que tem uma conta a pagar. Ao abrir a gaveta da mulher, encontra o boleto no meio de um caderno. Bate os olhos numa frase e as pernas bambeiam. Reluta, respira, e lê tudo num só fôlego. Fazia apenas quatro meses que os dois tinham se casado. E no diário, na primeira viagem depois da festa, ela escreve: ‘Eu estou viajando em lua de mel, mas não estou apaixonada. O Ricardo é legal, inteligente e, às vezes, me diverte, apesar de andar muito. Mas apaixonada eu não estou. Eu não sei o que vai ser quando voltarmos ao Brasil. Eu gosto de ser casada com um escritor. É só esconder certas coisas e pronto Eu sou uma mulher atraente, não tenho dificuldades para achar amantes, nunca tive’. Dias depois, emenda: ‘Imagina eu tendo um filho com o autista com quem me casei. O Ricardo é patético, qualquer criança teria vergonha de ter um pai desse. Casei com um homem que não viveu. O Ricardo ficou trancado dentro de um quarto lendo a vida toda’. Há muito mais, e ele resolve tirar uma cópia do diário e sair de casa. Ricardo Lísias é o protagonista de Divórcio (Alfaguara), novo romance do paulistano Ricardo Lísias, autor de O Céu dos Suicidas e de O Livro dos Mandarins e que viveu, na pele, situação semelhante à descrita no novo livro. À época, o polêmico caso foi acompanhado como uma elaborada ficção, que envolvia contos e fofocas, pelo meio literário, onde ele circulava, e o jornalístico, onde ela atuava. O livro chega agora às livrarias, dois anos depois do falatório. Não haverá um evento de lançamento, e por decisão do autor e da editora, ele só aceitou falar com a imprensa por e-mail. ‘Meu livro tem um ponto de partida pessoal e traumático e a partir dele criei um texto de ficção. É algo absolutamente comum na arte. Nesse sentido, meu procedimento inicial não tem nada de original. A linguagem, meio de expressão artístico da literatura, não reproduz a realidade, em nenhuma maneira. No caso do meu romance, a linguagem está sendo usada esteticamente. Por isso, não faz sentido algum o leitor tentar encontrar no meu livro ‘o que aconteceu’. A literatura não reproduz a realidade, mas sim cria outra’, justifica. Divórcio é dividido em 15 capítulos, chamados pelo autor de Quilômetro Um, Quilômetro Dois e assim por diante. É a distância que se percorre para completar a corrida de São Silvestre, que virou uma das metas do protagonista e parte importante de sua recuperação. Assim que conseguiu sair do choque do encontro com o lado desconhecido de sua ex-mulher, Ricardo percebe que precisa reaprender a respirar e recuperar sua pele, desgrudada de seu corpo, em carne viva desde o surto. Enquanto remói o que leu - os insultos, uma traição pouco mais de um mês depois do casamento -, se refaz do trauma e elabora seu luto, Ricardo caminha, corre, anota frases autobiográficas que o remetem à infância e juventude, aceita a solidão involuntária da pessoa que chora na rua de uma grande cidade sem ser notada. E escreve um livro. Afinal, Ricardo é escritor e trabalha num romance chamado Divórcio. No livro lançado agora está todo esse processo de recuperação do personagem, contado por ele mesmo, e de feitura da obra, além de suas reflexões sobre as fraquezas e pontos fortes do livro e as tentativas de dissuadi-lo de contar essa história. O personagem-autor escreve: ‘Divórcio é um romance que vai assumidamente fracassar. Eu queria contar tudo. Mas é impossível chegar lá’. Três capítulos depois, retoma: ‘Se meu objetivo inicial era deixar para trás todo o mal-estar que senti ao ler o diário, Divórcio é um romance bem-sucedido’. Lísias usa poucos nomes no livro, mas descreve algumas das pessoas envolvidas em sua história. A reportagem pergunta se tem receio de alguma retaliação por parte de quem possa se identificar com a obra. ‘Não consigo compreender como isso seja possível. Se alguém se identificar com alguma personagem do meu livro, estará se colocando na pele de uma personagem de ficção. Não posso controlar a atitude de um leitor diante de um texto. Acredito na liberdade dos textos, dos escritores e dos leitores’, responde. O autor diz que vale mais para o leitor se ele compreender que a arte não reproduz a realidade. ‘Eu nunca me achei personagem de um quadro, mas sempre tentei tirar deles o melhor que eu podia. Assim, a arte sempre foi um lugar absolutamente fundamental na minha vida, um pouco na criação, mas sobretudo na tentativa de desvendamento estético. É isso que torço para que os leitores de todos os meus livros façam’, completa.

O FICCIONISTA

Ricardo Lísias
enxerga a literatura como “forma particularmente profunda e eficaz de expressão”; a ficção, “uma fuga da vulgaridade e do lugar-comum”; os prêmios, “manifestações que dizem mais sobre o júri que sobre o autor vencedor e os outros”. Aos iniciantes aconselharia “a leitura de bons livros ( de grandes livros), e a procura de um caminho particular.”

Nascido em São Paulo em 1975, formou-se em Letras em 1997. Trabalha como professor de Língua Portuguesa. Além de aulas de português para estrangeiros e alguns cursos de literatura para interessados, colabora eventualmente com veículos da imprensa, como a revista piauí.

Foi um dos vinte autores selecionados para a edição da prestigiosa revista inglesa Granta que apresentou Os melhores jovens escritores brasileiros. Na edição brasileira, publicou o conto Tólia. Nas versões que circulam no exterior, o texto Evo Morales. Segundo o crítico Felipe Charbel, Lísias está entre os autores da revista que se “sobressaem pelo rigor formal, o investimento na construção dos personagens, o estilo bem marcado e ‘detectores de bobagem’ eficientes, que não deixam passar quase nada que faça o leitor torcer o nariz”.

O primeiro romance de Lísias foi lançado em 1999 pela Rocco e se chama Cobertor de Estrelas. Seis anos depois saiu pela editora Globo Duas Pragas. Pela Alfagarra, em 2009, veio a público O livro dos mandarins, que tornou seu nome visível na cena literária: a história traça um perfil dos executivos do nosso século. Pela mesma editora publicou O céu dos suicidas, em 2012: trata-se de história que tem como ponto de partida a morte trágica de um amigo próximo. Divórcio, do primeiro semestre de 2013, é quase biográfico: revive em plano literário experiência traumática que o levou de volta às sessões de análise. O protagonista chama-se exatamente Ricardo Lísias. Haja coragem.

Maria Fernanda Rodrigues,
jornalista

Livro

Título: Divórcio
Gênero: Romance
Autor: Ricardo Lísias
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 240
Preço: R$ 39,90

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