Chico Franco

Por: Vanessa Maranha

Quando vi a capa do livro Chico Franco, de Luiz Cruz, (Ribeirão Gráfica Editora), em que o próprio está na foto que a ilustra, vestido num terno branco, provavelmente linho, chapéu Panamá e tendo como fundo, a Praça Nossa Senhora da Conceição, lembrei-me imediatamente do meu avô Tarcísio Cunha, já falecido.

Para ele, diamantário que passava tardes inteiras na Praça Barão fazendo pequenos negócios, o máximo da elegância masculina era um terno branco. Penso que sapatos bicolores também. Nos casamentos, inclusive, era a indumentária de escolha, rebatendo veementemente as ressalvas de que em nupciais os convidados não devem competir com o branco reservado à noiva.

Teimava no chapéu, a despeito das súplicas em contrário. Eu dizia que ele assim ficava parecido com gângster ou malandro carioca dos anos 30 e, no sentido contrário da intenção, aí mesmo é que não o dissuadia da tal vestimenta. Ele ia adiante na sua ginga e malemolência latinas, certo eco de malandragem muito bem encoberto pelo corpo alto e esguio, o nariz adunco de difusos Balcãs ciganos, olhos amendoados de índio miscigenado.

Ah, a força da imagem e seus desdobramentos mnêmicos! A figura de Luiz Cruz, muito bem captada pelas lentes do fotógrafo Dirceu Garcia Júnior, é dessas arquetípicas, idílicas, onipresentes na literatura dos grandes latinos. Evoca a sabedoria das extensas caminhadas, no brilho da atemporalidade.

Chico Franco, que é o personagem -título, se desdobra num pretexto ficcional para conduzir contos-crônicas que narram com leveza a história de Franca com figuras reais e nominadas, fatos verídicos. Da sintaxe ao recurso do coloquialismo, da geografia urbana em boa parte já desaparecida, à sociologia e também à psicologia da aldeia, o autor homenageia e, delicadamente, agradece a cidade pela acolhida. Imortaliza anônimos, contorna o oficialismo histórico na retomada da tradição oral em transposição à literatura.

São textos de fundo memorialístico com perfume de ficção e o asseveramento de Luiz Cruz de que tudo traz o contorno do real, ainda que desprovido de rigor historiográfico, em se tratando de autoria literária.

Livro que se lê com simpatia e um sorriso nos lábios, à sombra agregadora, afável e leve do seu autor. Chico Franco, “o homem que tem cabeça de elefante”, é uma projeção de Luiz Cruz, assumidamente, seu alterego, como diz o próprio, matreiro: “inventei esse velho que anda por todo lado como um modo de contar a história dessa cidade”.

Vanessa Maranha,
Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida e Cadernos Vermelhos

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