Silêncio

Por: Janaina Leão

Ganhei cinco CDs ontem, de um cara que sentiu que eu estava precisando relaxar um pouco. Flauta andina, Piano, Healing Musics , Relaxation Chinese Music, Chinese Bamboo: melodias que levam/elevam para além do concreto.

O incenso derramava seu toque mirrado por todos os cantos da casa e eu escrevia um projeto, aproveitava o momento criativo. Tive minutos de paz tão intensa que cheguei a sentir arrepios na pele e bem estar profundo. Era como se meu corpo todo estivesse em oração/meditação.

De repente, atravessou a porta, as vidraças, meus tímpanos e meu peito num susto chutado na cara. Putz, putz, putz, putz,putz,putz,putz,putz,putz,putz,putz,putz,putz, putz arrombando minha casa e meu sossego.

Existem seres assim: invasivos e super-poderosos, profundamente mal-educados. Primitivos, psicologica e espiritualmente.

Agüentei aquele mantra dos infernos por quatro horas seguidas e acompanhadas de desespero profundo. Eu estava dentro da minha casa, para onde mais poderia fugir?

Pensei na senhorinha, minha vizinha que tem Mal de Alzheimer. Pensei em todos os outros velhos que têm por aqui, e que não foram “criados” assim, e em seus últimos suspiros, têm que sobreviver ao invés de desfrutar. Pensei em mim quando envelhecesse. Que Deus me dê serenidade para aceitar...

O silêncio faz parte da paz de estar consigo, de se conhecer. Dificilmente consegui em minha vida, transformar algo sem passar por ele, e pelos desertos da solidão. Fiz as pazes com a ausência de som. Eu me suporto e penso que foi sábio quem definiu que amigo é aquele que suporta seu silêncio.

Às vezes meu sossego é perturbado/violado, e nem assim o abandono. Sempre que posso, medito em contato com a natureza, ou aqui na minha casa/templo. Aprendi a duras penas que limites fazem um bem danado a todos os seres. É isso que nos define “sapientes”, é o que nos faz evoluir.

Janaina Leão, psicóloga

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