A carta

Por: Everton de Paula

Sou daqueles que escreviam cartas... A mão!

Não importava se o destinatário fosse algum primo que morasse em outra cidade, amigo, tio e tia, conhecidos ; o processo era sempre o mesmo, emocionante sob todo o ponto de vista.

Comprava-se um bloco de papel de cartas, alguns envelopes tarjados com as cores nacionais verde e amarelo e punham-se o engenho e arte a serviço da comunicação escrita.

Começávamos com um invariável Espero que esta vá encontrá-lo gozando de saúde junto aos seus... E depois, as pequenas notícias que contextualizavam o nosso mundo de criança ou adolescente, geralmente notícias da escola, de um último filme ou seriado de matinê, a família, uma festa de aniversário, algum segredinho confessável...

Dobrava-se carinhosamente o papel, ajeitava-se-o com cuidados extremos no envelope e se dirigia ao correio mais próximo para a colagem do selo com goma-arábica e a postagem.

Pronto. Agora é que começava a magia das correspondências de então.

Tanto na ida, quanto na resposta, sonhávamos com a viagem da carta.

Deveria ir num malote, ou num saco de lona verde-escuro usado pela empresa de correio. Da agência, talvez fosse de bicicleta para o ponto de ônibus ou para a estação de trem. Tomava o seu lugar no porta-bagagem. E ganhava as estradas de terra, de asfalto ou mesmo de ferro. Sempre duvidei da postagem em que se dizia Com urgência. Este envelope especial trazia a imagem de um avião. Mas como uma carta seguiria de avião saindo de Franca para a cidade de Altinópolis? Mesmo porque se fosse de avião, como a carta passaria por postes, árvores, campos, serrados, montanhas, ou seja, o mesmo cenário que a memória guardava quando se pensava no território que separava minha cidade da dos outros queridos?

Não, definitivamente, a carta seguiria por terra. Era mais seguro e a felicidade estaria completa.

A resposta duraria, com certeza, de quinze a vinte dias. Ou seja: um mês era tempo de se escrever e receber a resposta.

Esta era não menos emocionante.

O carteiro chegava ao portão de casa e gritava Correio! Ou simplesmente o nosso nome. Íamos correndo recebê-la das mãos suadas do mensageiro.

Certificava de que a carta era realmente destinada a mim. Depois, virava o envelope e lia o remetente. Tudo manuscrito, com caneta-tinteiro azul marinho.

Abria o envelope como se exercitasse um ritual bendito. Quantas promessas, quanta imaginação... Às vezes, uma fotografia fazia parte do conjunto. E me sentia reconfortado , tranquilo, algo dizendo que alguém distante se lembrara de mim e resolvera fazer com que eu tivesse certeza de tudo corria bem... Por uma simples cartinha.

Recebi tantas cartas e respostas, e não guardei uma única sequer. Como me arrependo não tê-lo feito, já que teria em mãos, hoje, a prova concreta de uma época em que se corria menos e se vivia intensamente.

Não, hoje não as tenho comigo. Apenas faço uso de uma fria tela de computador em que o e-mail tenta substituir as cartas de antigamente. Não sou contra a evolução, o progresso, a rapidez, a justeza das coisas e sua adequação ao princípio irreversível e inexorável da história das civilizações, mas nem de longe o e-mail, o correio eletrônico, a carta virtual traz para mim a mesma sensação de antigamente. Onde os postes, as montanhas, os prados, os fios elétricos, o carteiro gritando meu nome, as viagens, o trem, o ônibus, a folha perfumada pelas mãos da namoradinha? Onde a simplicidade envolvente do Espero que esta vá encontrá-lo...?

Se ganhamos com a evolução nas comunicações, perdemos feio para a emoção da correspondência manuscrita. Com certeza, esta situação é mais uma entre milhares de causas para o empobrecimento imaginário dos homens de hoje , assim como a sua tristeza provocada a que, sem saberem as causas, andam chamando de depressão ou estresse.

Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos

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