Contato digital

Por: José Borges da Silva

Há mais de meio século Albert Einstein demonstrou que o tempo e o espaço andam juntos e que a matéria não passa de ilusão. Matéria, tempo, espaço, são consequências da lerdeza dos sentidos humanos. Quer dizer, os corpos materiais que na verdade são “feitos” de energia, quando parados parecem sólidos aos sentidos humanos. Mas, acima da velocidade da luz, tudo se torna relativo, a matéria se transforma em energia e o tempo desaparece, confunde-se com o espaço. Grosso modo, é isso quer significa a famosa equação: E=m.c². Mas, no dia a dia, ninguém acredita nisso, não é mesmo? A não ser os físicos, os especialistas em Física Quântica. Mas, cá entre nós, se prestarmos atenção veremos que a vida moderna aos poucos está nos levando até lá também. Observem que mesmo sem entender a teoria da relatividade, cada vez mais utilizamos coisas que nada mais são do que energia pura. Provas? Há bem pouco tempo ninguém comprava sem levar dinheiro: notas, moedas ou cheques. Em tempos mais recuados, ouro, prata, sal, vaca eram as moedas de troca... Hoje, muita gente já não vai às compras, mas as compras é que vêm às casas, solicitadas eletronicamente e pagas com o cartão de crédito. A correspondência que era entregue pelo carteiro, hoje é eletrônica. Os correios entregam mercadorias, até que possam ser convertidas em energia... E o que é o crédito, senão uma ficção? A sua representação nas compras talvez possa ser definida como uma mera sequência de pulsos eletrônicos, isto é: energia! Nesses sistemas de comunicação a voz, o texto, as imagens, os documentos, os indicadores de valores são convertidos em ondas, que são transmitidas em todas as direções para, captadas, serem decodificadas no receptor do destinatário. Vivemos em um mundo que cada vez mais se rende à energia. E a ele vamos nos adaptando, sem nem mesmo nos darmos conta!

Há alguns dias os processos judiciais no Estado de São Paulo se tornaram digitais. Ou seja, o advogado não mais precisa imprimir petições, copiar documentos e protocolar no foro para iniciar ou dar andamento em ações judiciais. Nem tampouco precisa ir ao Cartório Judicial para “ter vista dos autos” e saber o que o advogado da parte contrária “falou”, ou seja, para realizar os debates da causa. Para isso, basta acessar o processo digital, disponível vinte quatro horas por dia no site do Tribunal de Justiça do Estado. A mudança é drástica. Dá para tocar um processo de qualquer parte do mundo. Não há mais necessidade de escritório, de automóvel, de telefone, de secretária, de paletó, de gravata, etc. O processo judicial é apenas um pacote de energia disponível no @-SAJ Sistema de Automação da Justiça. A economia é imensa. Mas, como toda inovação em coisa tradicional sempre apresenta algum efeito colateral, logo eu percebi um deles, quando estive no Fórum de Franca para ver um processo antigo. Antes, é preciso esclarecer que os processos antigos seguirão no velho estilo de petições de papel, até o seu final. A inovação atingiu os processos novos. Mas, eis o que vi: um grupo de advogados antigos vagando sem rumo, por corredores já visivelmente esvaziados em certas horas do dia. Confesso que senti um friozinho permear o ambiente, certa nostalgia das tardes de audiências (que ainda nem acabaram), dos balcões cheios de gente nos cartórios. E já fiquei imaginando que daqui a pouco tempo só serão vistos por lá um ou outro servidor, até que a modernização se complete. Porque parece que o Fórum também está fadado a desaparecer. Mas, acho que esse tipo de sentimento é passageiro. É típico das pessoas que nasceram há quatro décadas ou mais, e que vêm assistindo, assustadas, à revolução digital. Porque os jovens que hoje passam dias reclusos com seus tablets, notebooks e outros equipamentos, não têm necessidade do contato pessoal, como nós. Eles fazem parte de uma geração cujo meio de contato natural é o digital. E é obvio que em pouco tempo irão cuidar dos processos judiciais em todos os níveis. Naturalmente, sem sobressaltos ou nostalgias!

José Borges da Silva, procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras