Conversa no telhado

Por: Maria Luiza Salomão

Quando embiquei com o carro, e olhei, puro hábito, para o telhado da minha casa, vi uma, não, duas manchas negras enormes no plano inclinado das telhas claras...

Tento decifrar a imagem, recortada contra o céu, e descubro: dois urubus tomando sol, asas abertas, enormes, para-ventos negros.

Eu me assuntei se essa visão me assustava, se acreditava em agouro, má sorte, profecia maligna, pouso do demônio, visita do além...

Coitadinho do urubu! Que triste estigma, uma insensatez. Subi no telhado para conversar, saber o que faziam ali, etc. e tal. A princípio fecharam as asas e ensaiaram voar. Eu os acalmei, não os via como estrangeiros invadindo meus domínios. Ao contrário, queria saber o que faziam no meio do trânsito urbano, sem carniça por perto.

Eles sossegaram um pouco, meio desconfiados, e me disseram que a vida está difícil, sem mortos à vista, sem emprego, afinal, são muito bons lixeiros e ajudam a terra na metabolização do que precisa desaparecer. Até confirmaram coisas que me intrigam desde sempre. Os seus primos, da mesma espécie, mas de cores de penas diferentes - a águia, o condor, animal-símbolo dos Andes - sempre foram regiamente tratados. Não entendiam a discriminação. Nem eu, disse aos urubus, nunca entendi o desprezo por um bicho prestativo, como eles. Tanto bicho que vive de bicho morto, a começar pelos bichos humanos que comem vaca morta, porco morto, peixe morto. Os humanos são carniceiros ferozes, matam os da mesma espécie e não os comem, diferentemente deles, urubus, que não atacam os vivos. Aliás, para os humanos é tabu comer gente da mesma espécie, a menos que esteja em situação muito extrema.

Os urubus se espantaram com a enxurrada da minha fala. Eles nascem velhos, os urubus, cabeça depenada, enrugadinha e negra, olhos redondinhos vermelhos, penas lindas. Talvez mais sábios. Recolheram as asas e me deram adeus. Pedi que voltassem, gostei de vê-los por ali. Eles têm retornado, principalmente agora, época de acasalamento, primavera. Talvez procurem um ninho.

O bicho humano julga pedras, animais, bichos, e os da mesma espécie, com juízos equivocados, mortos, demoníacos. A razão e a sensibilidade abrigam ideias corruptas, defuntas. Deveriam existir, permanentemente, urubus psíquicos que devorassem, metabolizassem, limpassem a alma e o corpo do que podem adoecer corpo e alma. Não precisamos somente de colibris e de beija-flores na vivalma, mas de nobres urubus.

Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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