Excesso de peso?

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Quando entro no estabelecimento comercial do Hormízio, há duas pessoas de pé, aguardando atendimento. Três outras estão sentadas diante de um balcão de vidro, sendo atendidas pelos filhos do proprietário e por uma moça bonita. Observo que todas experimentam armações de óculos.

Ao me ver na fila, um dos rapazes fala em voz alta:

- Pai, vem atender o professor.

Dois minutos depois, um homem desce lentamente a escada que conduz ao mezanino.

- Que deseja, professor?

- Pode atender as moças, eu espero. Estou aposentado, tenho tempo. E também eu só vim reclamar.

- Reclamar? Reclamar de quê?

- Dos óculos que você me vendeu. Não são bons não.

- Como não? O que que aconteceu?

- Veja aqui. Eu só deitei em cima deles e olha o que aconteceu, ficou tudo amassado. Não consigo ver mais novela, não vejo mais jogo.

O homem atrás do balcão toma os óculos de minha mão, examinas hastes cuidadosamente, conclui:

- É... tá danado. Vou ver o que posso fazer. Não vai ser fácil. Não posso garantir muita coisa não. Acho que você está com excesso de peso.

- Será?

- Estou quase certo que sim. Mas deixa os óculos aqui e volte depois do almoço. Vamos fazer um esforço pra ver se você não perde o capítulo da novela.

Saio, observando, com o rabo do olho, o sorriso disfarçado que se esboça na cara dos fregueses.

Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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