Ocasos

Por: Eny Miranda

A varanda de oeste promete beleza: afora alguns rasgos de nuvens começando a maquiagem vespertina, o céu está limpo; trazendo seu ouro, o sol volta do garimpo cotidiano. Ocasos luminosos são belos, mas nostálgicos, inspiram reflexões, convidam ao recolhimento.

- Olha a chuvona chegando!

O comentário em voz alta quebra meu instante de contemplação.

- Nossa, a coisa vai ser feia! Vem aí uma baita tempestade!

Do outro lado da rua, enquanto fala, o menino observa o céu e recolhe apressado a sua pipa.

- Olha só as nuvens! - exclama, excitado, voz estridente. - Pretas e superbaixas!

Não posso ver o céu que ele me aponta (entre nós há uma casa, a minha), nem consigo imaginá-lo: como “vem aí tempestade”, se diante de mim só vejo azul e sol?

Incrédula, mas curiosa, vou até o extremo da varanda. Dali, olhar à ré percorrendo a parede externa, alcanço o que se passa no outro céu, e o quadro é mesmo assustador. De fato, lá está a compacta massa escura (quase negra), tão baixa que parece tocar o telhado da casa. Esqueço-me do sol, do azul, da promessa de um sereno, belo - previsível - crepúsculo. Corro para a janela dos fundos.

Vistas de lá, as feições da tarde assumem uma beleza sombria, misteriosa, aterradora. Poucas vezes vi cenário como este: uma onda escura, larga e espessa avança em nossa direção; parece um tsunami, prestes a desabar sobre nossas cabeças (que vulcão celestial o teria parido?); um vagalhão pronto a abater-se sobre o nosso adulto equilíbrio, exumando fantasmas de infância: noites povoadas por uivos de vento e rugidos de mar bravio; olhos escancarados para o breu; mudas súplicas a anjos da guarda; ideadas queimas de palha benta contra a cólera das águas...

Lembro-me então do menino, aflito, recolhendo inda agorinha a pipa a seus temores e, provavelmente, às asas de seus anjos.

Prenhe de mil tempestades, o pesado ventre começa a partejar. Nascem as gotas, a princípio, grossas e esparsas e, logo depois, numerosas e ruidosas: pequenas esferas de gelo cortando, enviesadas, a tarde prometida azul. Contudo, o sol ainda brilha forte no oeste, e sua luz se multiplica nos cristais que brotam continuadamente. Milhares de pequeninos sóis vão estrelando, meteóricos, o nascente escuro, enquanto o poente é todo azul e coloridas fitas suspensas no ar.

Onde estarão o menino e sua pipa?

Os passarinhos estão soltos, enlouquecidos de alegria. Aos bandos, cantam e batem as asas; frenéticos, lançam-se em voos rasantes de ousadas coreografias; amantes ébrios de prazer, entregam-se à orgia da beleza e do movimento. Aqui a tarde palpita. O mundo cheira a terra, água fresca e mato molhado; soa a regato correndo sobre pedras; sabe a cachoeira despencada, lavando medos antigos.

Velho revelador de segredos aquáticos e solares, o arco-íris aparece, confundindo os dois ocasos. E a vida se derrama, redentora, entre fontes buliçosas e plácidos azuis.

Tudo é intenso e efêmero, como se uma súbita floração de luminosas cerejeiras se desse em céu noturno, e um fugaz hanami acontecesse no espaço, em loas aos inesperados sakura.

Menino, menino, onde você está?

O dia se dissolve em pétalas escorridas. E a noite com sua barraca negra já monta acampamento no céu.

Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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