Comício

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Microfone na mão direita, o candidato a vereador é só entusiasmo e promessas. Parece reinar lá do alto, lá da traseira da camioneta, momentaneamente promovida a palanque. Guardadas as proporções imensas o homem parece um Padre Vieira no púlpito.

— Vocês não sabem... Mas eu fui atrás, eu estudei, eu fiz pesquisa no computador. Vocês não sabem... O povo esquece as coisas... Mas, de primeiro, todo mundo trabalhava de sol a sol, de domingo a domingo. Não era só preto que sofria, não. Era todo mundo que penava. Aí, um vereador teve a idéia e inventou a Semana Inglesa. Aí, todo mundo parou de trabalhar no sábado, no domingo e nos feriados. Então, eu pensei, pensei e resolvi: se eu for eleito, vou inventar uma lei melhor ainda. Vou inventar a lei da Semana Brasileira... E vai ser assim: todo mundo só vai trabalhar na terça, na quarta e na quinta-feira. O resto da semana é pra todo mundo ir pro lazer, é pra todo mundo passear com a família, viajar...

Os propósitos do candidato chegam ao público misturados a ruídos de toda sorte. Próximo ao veículo, é um grupo que aplaude; ao lado, é um bêbado que pede a palavra; mais longe, é um gaiato xingando a mãe de todos os políticos. Tudo isso, mais as deficiências do aparelho de som impedem a compreensão plena das palavras e das promessas.

Assim, um pedinte sentado na calçada, com ansiedade na voz, especula o ceguinho de pé, ao seu lado, apoiado em bengala metálica:

— Das férias... das férias... O que que ele falou das férias?

— Peraí... peraí...Deixa eu escutar.

Não há, porém, como escutar projetos e intenções. O que se ouve agora é foguete espocando, é grito saído de muitas gargantas:

— Viva! Viva!

— Já ganhou!... já ganhou!


Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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