Mistério líquido

Por: Maria Luiza Salomão

Quando pequenina eu me lançava à chuva, quando não havia adulto vigiando. Na rua, andava na enxurrada e me ensopava com o carro explodindo poças na rua.

Algumas vezes tive sombrinha ou guarda-chuva, nunca ganhei uma ou outro, felizmente. Já paquerei sombrinhas lindas, mas eu as usaria uma vez e esqueceria - mesmo a mais linda de todas - de propósito inconsciente no primeiro lugar que entrar...

“Se está na chuva é para se molhar”, talvez seja um bom ex-libris para mim. Com tecnologia em mãos, gravo os seus sons molhando tudo: telhados, jardim, a cachoeira das calhas, o tamborilar constante em vários recipientes. E não me incomodo com uma chuva, se me colhe repentina: não sou de açúcar.

Esse ano eu remodelei um cômodo de casa, meio que abandonado, talvez por conta de, pelo menos, três goteiras. Ele virou quarto de música e videoteca. Já tem três bacias esperando as instrumentais do batuque. Uma se abisma no chão de porcelanato; outra batuca em uma estante de madeira; e a outra escorre, silenciosamente pela parede, deixando figuras interessantes, de qualidade expressionista, nas paredes. Tirei uma foto da pintura goteiral, mas é possível que seja somente eu a ver beleza, onde, realmente, é uma parede descascando...

O quarto reviveu, até coloquei tapete, com as bacias a postos. No domingo caiu baita chuva, e eu pensei...lá vem elas. Mas não vieram. O tapete está sequinho.

Admiro chuvisco de molhar bobo, até a tempestade de granizo. Aquela constante, que parece nunca mais vai parar, é trilha sonora para ler e meditar, aconchegante; boa para fazer roda e contar histórias.

Gosto da que cai oblíqua, bate forte em portas e janelas, quer entrar sem pedir licença, furiosa, louca, histérica; do manso e tedioso chuvisqueiro; dela na piscina, a água quentinha; de caminhar na chuva beira-mar; do nevoeiro com garoa, na montanha; de pancada abundante, que vai-e-vem no repente, chuva de verão, que irrompe feito paixão.

Do cheiro ao tocar a terra, dos círculos que forma na água, das suas poças em todos os cantos, do rio que ela engrossa, das cócegas que faz no mar, eu sou menina curiosa do muito mistério que há na água que cai do céu, com aviso e sem aviso. Um dia, não estrela, mas...quem sabe viro chuva?


Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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