Éramos três

Por: Chiachiri Filho

Ainda me pertence a casa onde nasci e cresci. De vez em quando, gosto de visitá-la e, dentro dela, respirando os seus antigos ares, posso evocar com mais intensidade os tempos idos e vividos.

Dias atrás, estive no meu velho ninho e deixei-me submergir no meu próprio passado. Entrei, sentei-me em torno de uma mesa, a mesma mesa que nos servia para o almoço de Natal. Senti-me extremamente solitário. Não encontrei nem o meu pai e nem a minha mãe. Eu estava só, sem a presença protetora e reconfortante daqueles que me deram a luz e me ajudaram a crescer. De meus olhos brotaram duas lágrimas que escorreram sobre minhas faces e se desmancharam em ternas recordações.Se meus olhos não podem enxergar o presente, eles conseguem ver com muita nitidez o passado. Comecei a sentir a presença do meu pai com seus grandes e bondosos olhos azuis. Vi minha mãe ( sempre a última a sentar à mesa ) com as suas mãos firmes e habilidosas arrumando a mesa e enchendo os nossos pratos.

Éramos três, somente três no almoço de Natal. Em casa não havia ceia natalina. Quando pequeno, eu tinha pressa em dormir para, no dia seguinte, procurar o presente que o Papai Noel certamente havia deixado debaixo da cama. Quando adolescente, nós íamos assistir a Missa do Galo. O Natal, para nós, limitava-se ao almoço que, graças ao bom Deus, era farto e alegre.

Em novembro de 1972, meu pai faleceu. Na mesa, ficamos eu e minha mãe. O Natal daquele ano foi muito doloroso. A tristeza abateu-nos profundamente.

Vieram muitos outros Natais. Mudei de casa e de mesa. Além do almoço, passamos a preparar as ceias. Em todos os almoços e ceias, minha mãe esteve presente. Nunca me abandonou . À meia-noite, ela fazia questão de envolver-me em seus braços trêmulos desejando-me um feliz e santo Natal. Porém, neste ano, tanto ela quanto o meu pai estarão ausentes. Por mais pessoas que me cercarem, vou-me sentir só, muito só. Para que a tristeza não me domine, vou voltar meus olhos para o passado e rememorar os tempos felizes em que éramos três. Somente três em torno de uma mesa de Natal repleta de paz, amor, harmonia e felicidade.

O Natal é isso mesmo: é saudade, lembrança, paz e alegria. Uns vão, outros ficam, outros virão. O importante é que o amor, a solidariedade e a confraternização permaneçam para sempre.


Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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