Chico Franco e a cidade

Por: Caio Porfirio

Chico Franco, personagem central que dá título ao livro (Chico Franco, Ribeirão Gráfica e Editora, 2013), é a alma vívida e sentida de um tempo passado da cidade. Através dele o passado se faz presente, em idas e vindas, ao longo de ruas e praças.

Em capítulos curtos, Luiz Cruz de Oliveira desenvolve um livro notável, poético, quase palpável. Um mundo de pessoas afloram do passado e, em conversa com o velho vestido de branco, chapéu e bengala, trazem a relevo época da cidade que se foi com o correr do tempo. É um jogo palpitante e humaníssimo notável. A alma de Chico Franco palpita em suas caminhadas; a alma dos que dele se aproximam, puxam conversa e se identificam, palpita; e palpita, sobretudo, a alma da cidade de tempos idos. Um jogo continuado de espelhos e contra-espelhos, do passado que se faz presente e do presente que volta às pulsações do passado.

É o tipo do livro para ser lido e sentido, eis que não há como contar estes lampejos cinematográficos, que se foram. Quase não há o descritivo. O narrativo é transferido praticamente para o campo das falas. Através da dialogação intensa, simples, objetiva e oportuna, o autor traz ao vivo e pereniza, pulsantemente, todo o passado e presente. E a poesia caminha subjacente, nas entrelinhas, ao correr de todo o texto.

O próprio autor se transmuda em personagem, ao despedir-se de Chico Franco. E o surpreendente é que ele, autor, que fecha o livro, não se envolve no processo narrativo. Incorpora-se, também, às personagens várias, que rememoram, ao lado de Chico Franco, o passado da cidade.

Luiz Cruz de Oliveira é um impressionista. Suas imagens veem ao vivo e se eternizam, trazendo o leitor para dentro do texto. Acompanhei Chico Franco, vi a cidade com uma vontade imensa de conversar com o velho, como os tantos outros que com ele dialogaram.

Para um bom livro é repetir o que sempre dizia Rachel de Queiroz: ‘É ler e comprovar.’

Como este.


Caio Porfirio, escritor, crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti

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