Mudanças e Mutações

Por: Jane Mahalem do Amaral

Em português, não há o verbo mutar, mas existe transmutar, que vem de mudar. Depois de ouvir um mestre que me falava de mudanças e mutações, comecei a pensar nas diferenças que essas duas palavras podem conter na essência de cada uma.
 
Mudar é pôr em outro lugar, dispor de outro modo, remover, deslocar... Assim, fazemos muitas mudanças, diariamente, em nossas vidas: mudamos a cor do cabelo, o estilo de roupa; gostamos de variar os sabores dos alimentos, mudando o tipo de comida; removemos muitas vezes o velho, para dar lugar ao novo, fazendo mudanças nos nossos móveis; realizamos viagens sonhadas nos deslocando no espaço, para mudar o visual, ouvir outros sons, sentir outros odores... Vamos, então, mudando nosso cotidiano, colorindo nossos dias para que eles se tornem mais amenos, mais alegres.
 
Porém, enquanto fazemos essas mudanças, temos que estar atentos àquilo que precisamos transformar, transmutar. A primeira questão, talvez, seria perguntar não o que eu quero da vida, mas o que a Vida quer em mim. Para começar a responder o que eu posso oferecer à Vida seria imprescindível iluminar todos os lugares de confusões ou de mistificações que me habitam em cantinhos escuros e escondidos. Tomar posse da verdade que eu sou. Reencontrar a alegria do início do caminho. Mas é nesse ponto que nos deparamos com a resistência e, justamente, será ela que provocará a dor que nos levará ao crescimento. Chegou o momento da mutação. Temos sede de sair do velho e encontrar o novo. Ouvir a Vida. Livrar-nos das opiniões cristalizadas, enxergar que o nosso caminho é povoado de descaminhos, mas que são exatamente esses descaminhos que poderão nos levar a uma nova trilha. Sair em busca do Mistério, mesmo sabendo que ele nunca nos permitirá conhecê-lo totalmente. Compreender os acontecimentos como oportunidade e não como castigo. Assumir a responsabilidade da minha própria vida e não culpar o outro pelos meus fracassos. Sou eu o sujeito da minha vida, sou eu o responsável por fazer as minhas mortes. Eu morro a cada vez que tenho que mudar meu nível de consciência, como o adolescente tem que morrer para nascer o adulto. Transmutar é avançar em espiral, sair do ser pequenino para o Eu Maior. É sentir a leveza de ter deixado uma carga inútil para trás. Mudar é externo e posso fazer isso muitas vezes, mudando sempre a mesma coisa, mas de forma diferente. A mutação é interna e, ao conquistarmos um novo nível de consciência, não mais voltamos atrás. Será sempre um passo a mais. Isso se comprova quando, ao realizarmos uma mutação, ocorre simultaneamente uma mudança externa, visível aos olhos do outro: “Você está diferente, mais bonita... O que você fez? Mudou o cabelo?” As pessoas não sabem identificar com clareza, mas sentem a força de uma nova energia presente na mutação.
 
O que temos feito com mais frequência no nosso cotidiano? Mudanças ou mutações?
 
É só olhar para o caminho percorrido: se ele estiver repleto de repetições inócuas, vazias, então temos feito apenas mudanças. Mas se ele estiver pontuado por passos pacientes que me pedem mais do que um simples visual, então estou indo em direção a uma mutação que deixará, a cada dia, mais viva a minha alma.
 
Jane Mahalem, escritora

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras