De Verdade

Por: Sônia Machiavelli

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Quando olhei a capa do livro De Verdade, presente de Vanessa Maranha, o título me lembrou alguns comentários que havia lido nos jornais a respeito da excelência da literatura produzida pelo húngaro Sándor Márai. O nome dele também não me era estranho: sabia que escrevera uma narrativa romanceada que tinha a nossa Canudos como tema. Li De Verdade, 445 páginas, no último final de semana. De enfiada, como acontece quando me apaixono pela história. 
 
A saga começa em 1940 e como protagonistas Ilonka, Péter e Judit, vértices de um triângulo amoroso; um escritor, Lázár, amigo de Péter; um músico, Ede, último amante de Judit. Estruturada em quatro grandes monólogos, começa com Ilonka, mulher refinada, contando a uma amiga, numa confeitaria de Budapeste, o fracasso de seu casamento com Péter. Prossegue com este, herdeiro de grande fortuna, analisando para um amigo, num café, o mesmo fracasso a partir de sua ótica, e inserindo Judit, antiga criada da família e sua segunda mulher, de quem também se separa. Em seguida é Judit quem de manifesta, em Roma, muitos anos depois, para dar a sua versão dos fatos, e especialmente suas impressões sobre Lázár, ao jovem Ede. É este quem, agora em Nova York, encerra o relato em 1979, revelando o destino final dos outros personagens. Decepcionado com os modelos de sociedade vigentes no mundo contemporâneo cabe a ele a última palavra. Nesta estrutura original parece ao leitor que um gravador passa de um a outro personagem, colhendo seus depoimentos, como numa gigantesca oitiva.
 
Quatro vozes em três cidades emblemáticas nos falam da rígida estratificação da sociedade húngara até a entrada do País na Segunda Guerra; dos espaços onde, antes dela, a burguesia defendia sua segurança ancorada nas posses; da sensação de fragmentação de mundo e de vazio existencial ao término do conflito; da face ditatorial e opressiva da expansão comunista que se seguiu; do impacto do consumo na vida dos ocidentais a partir dos anos 1970; da mudança do conceito de cultura e literatura na segunda metade do século passado. Estes são alguns temas que alimentam a linha histórica da narrativa. .
 
Entretanto, o que mais punge, o fulcro do relato, seu tutano, são as revelações dos personagens, na linha do relacionamento afetivo, trazendo à tona questões incômodas sobre casamento, intimidade, fidelidade, amor, princípios, mentira, traição. De não se estranhar a surpresa, senão a perplexidade de muitos leitores, diante da cachoeira de verdades despejadas sem pudor, com coragem, através de linguagem cristalina e bela. Afinal, onde a verdade? Nossos olhos nos traem? Vemos apenas o que queremos? Quando não aguentamos a verdade, costumamos nos iludir? Quanto de verdade cada um de nós suporta? A intimidade nos permite conhecer melhor o outro? Até onde deixamos que nos desvelem? Será moralmente defensável tentar adentrar a alma de alguém que não quer se mostrar por inteiro? Até onde a condição social explica o comportamento? O que conseguimos apreender realmente do caráter do outro? E as áreas não preenchidas da nossa alma, como lidar com estas faltas? O sofrimento é alavanca para a maturidade? Ou quase todo sofrimento é inútil diante da efemeridade da vida? “A pobreza e a doença modificam de maneira milagrosa os valores dos problemas dos sentimentos e do espírito?” E será mesmo que “a casa dos pais sempre é um pouco a cena do crime?” 
 
Estas são apenas algumas perguntas que de formas direta ou indireta são feitas por todos os personagens e assumem na boca de Lázár aquela função de coro na tragédia grega, anunciando o que está acontecendo, o que já aconteceu e o que provavelmente advirá porque o presente semeia o futuro.
 
Não se esperem respostas prontas, pois este não é um romance de tese. Ele é, isto sim, espaço de questionamentos sobre conflitos desencadeados por sentimentos sofisticados como amor, amizade, honra, respeito, ódio, ciúme, ressentimento- alguns dos muitos que nos definem como humanos. E incompletude, sensação recorrente em quase todos os discursos, com maior agudeza no de Péter, que busca “a mulher de verdade” e desperta desta ilusão ao admitir que ela não existe afinal : “ Nem na terra nem no céu. Não existe em lugar algum, aquela. Existem apenas pessoas, e em todas há um grão da verdadeira, e nenhuma delas tem o que do outro nós esperamos e desejamos.”
 
Talvez seja uma conclusão pessimista, embora a realidade nua e crua se revele a nós no cotidiano. E para quem busca alguma aprendizagem, o autor é bem explícito: “O mais importante não se pode dizer a ninguém. Todos aprendem sozinhos”. 
 
O preço é alto. Pagamos sempre com dor alguma sabedoria. 
 
 
O ESCRITOR
 
Sándor Márai. 
 
Sándor Márai nasceu em 1900, na antiga Hungria, hoje Eslováquia. Filho de advogado e professora, escreveu o primeiro romance aos 24 anos. Ao morrer, em 1989, nos EUA, tinha no currículo sessenta títulos. Romancista e poeta, foi como jornalista que começou a ganhar a vida aos 20anos, trabalhando em seu país, na Alemanha e como correspondente em Paris. Já era muito conhecido quando em 1948 deixou Budapeste, desgostoso com a supressão das liberdades e com a perseguição aos descontentes com a ditadura comunista. Não se conformou com o fato de ter toda sua obra proibida de circular em seu próprio país e se auto-exilou na Suíça, na Itália, na França. Em 1979 fixou-se nos EUA, onde se matou dez anos depois. Tinha 89 anos.
 
Traduzidas, suas obras passaram a ser conhecidas dos brasileiros em 1999, ano de publicação de As brasas. Em 2001 foi a vez de O legado de Eszter, um dos romances de maior vendagem. Veredicto em Canudos, que Sándor escreveu depois de ler Os Sertões, de Euclides da Cunha, apareceu nas livrarias em 2002. Divórcio em Buda (2003); Rebeldes (2004); Confissões de um Burguês (2006); Libertação (2009) chegaram em português, como os outros, pela Companhia das Letras. 
 
De Verdade tem gênese original. A primeira edição saiu em 1941 com o titulo de Az Igazi , que a editora portuguesa Dom Quixote traduziu ao pé da letra como A Mulher Certa. Mas eram apenas os dois primeiros monólogos já mencionados. Na edição alemã de 1949 o ficcionista adicionou a terceira parte, escrita no seu exílio na Itália. Em 1979, já nos EUA, voltou a mexer no romance, acrescentando um epílogo ao qual deu o título de Judit e a fala final, como chegou aos nossos dias. Trocou A Mulher Certa por De verdade.
 
A tradução para o português foi feita por Paulo Schiller. Sándor Márai sempre escreveu em húngaro. (SM)
 
 
Exposição
 
Título: De Verdade
Escritor: Sándor Márai
Editora: Companhia das Letras
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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