Dádiva

Por: Inerita Alcantara

Brincalhão, meio que enrolado nas cortinas, já às sete horas me tira da cama com um beijo iluminado, inconsciente talvez do frenesi que causa em minha alma, em meu corpo todo, anunciando vida em abundância.
 
Acompanha-me no banho matutino. E minha pele seca quase toda antes mesmo do toque felpudo da macia toalha. Ele está na escolha da fragrância do dia, da roupa mais confortável, da cor do batom...
 
Na cozinha, espalha luz por todas as paredes brancas de minha vida, tornando o amargodoce do cheiro de café fresco ainda mais adorável. Abro-lhe todas as janelas. Durante a leitura, à mesa do desjejum, sua cálida presença silenciosa inspira ideias, sonhos e mundos a serem descobertos e redescobertos. Quase o esqueço, mas algo em mim sabe-o ali, leal, confidente, com seu toque discreto ressuscitando alegrias, como aquelas que a gente não sabe porque.
 
Ao meio-dia ele empertiga-se todo no empenho de sua caminhada mais íngreme sob a azulíssima abóbada terrestre. Faz-se sombra sobre mim. Ele se vai meio escondido, levando em si minha doce ansiedade pela espera do espetáculo maior.
 
Lá pelo meio da tarde, entretanto, ele resolve brincar novamente. Anuncia-se, desta vez na sala, de um jeito insinuante, mas, orgulhoso de já estar em direção ao fim de sua jornada diária, vai logo se fazendo todo dono do meu espaço, se estica no sofá, alcança móveis, queima minhas retinas na tela do laptop, toca em mim, arde em mim. 
 
Cerro as cortinas, janelas. Ligo o aparelho de ar-condicionado. Fecho-me.
 
Após umas três horas, incomoda-me certa saudade! Os olhos clamam por luz natural. Corro a abrir cortinas e porta-janela e salto para a sacada. E dali, do 13º. andar, reencontro-o. Há certa melancolia no ar... A luz espichada parece refletir braços estendidos em adeus. 
 
E paro tudo. E tudo para na despedida inexorável. E inexorável é também minha incapacidade de reter todo o show. Por mais que os olhos tentem, não conseguem ver totalmente tão fulgorosa imagem... Parece que há mais pressa na chegada! Procuro focar o quadro geral... Impossível! Tons se sobrepõem . Observo uma parte do espetáculo, e já a outra parte ... modificou-se! Perco-a... No meio dessa profusão de cores e luzes, o horizonte abraça-o e o envolve em manto multicolorido em que ele se aninha - não sem antes direcionar-me uma piscadela - deixando um halo de tons alaranjado, azul, cinza, vermelho e minha estupefação - a marcarem seu rastro. 
 
Olhos fixos no local da cena, permaneço ali, alma embebida de beleza e gratidão! Lá embaixo, as casas, mergulhadas agora em fundo preto-e-branco, num claro-escuro translúcido, adquirem fugaz importância, como em uma tela de Renoir, emolduradas pelo horizonte colorido ainda a pulsar. Em minutos que parecem segundos fracionados a magnífica obra de arte se desfaz sob a escuridão que avança impiedosa. Luzinhas vão se acendendo ali, acolá... e sem que eu perceba, já se formaram longos colares de contas douradas remodelando as ruas da cidade. 
 
Com a alma leve, recolho-me também, certa de que amanhã terei novamente sua companhia, e serei outra vez agraciada por tão magnífico espetáculo. 
 
Inerita Alcântara, professora

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