Dona Bárbara

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Sinto saudades de minha sogra. Sim, minha sogra, aquela mulher baixinha, inteligente e perspicaz que eu soube amar e respeitar e nisso, tinha certeza, houve sempre reciprocidade. Era ela, a mulher que resolvia problemas, fossem os seus ou das pessoas que a cercavam. Incrível a minha saudosa sogra.
 
Quantas coisas aprendi com ela enquanto morávamos em São Paulo e vizinhas na rua Pamplona, naquele tempo um lugar tranquilo e bonito. E foram tantas coisas que dona Bárbara ensinou, desde as mais sérias e importantes para a vida até as mais corriqueiras e engraçadas, como por exemplo: o subir e descer na escada rolante, o que antes me apavorava; sozinha tomar um táxi ou ônibus, que também me causava um certo constrangimento; fazer compras no centro da cidade, ir ao médico, ao dentista, tudo o que me levasse a percorrer as ruas de São Paulo e com a minha sogra aprendi a não ter medo.
 
Lembro-me muito do dia do meu noivado com o seu também saudoso filho e o mimo que dona Bárbara me ofereceu como presente: um par de sapatos e luvas de pelica, lindas; um véu bordado em azul quando à missa aos domingos. Tudo muito elegante e eu até me via bonita.
 
E foi num dia de Santo Antônio, o santo da sua devoção que a minha saudosa sogra, pela última vez pode percorrer a rua Pamplona, o que fazia em todos os anos buscando a Igreja onde pudesse pegar pãezinhos bentos que seriam distribuídos às pessoas da família. Mas isso não aconteceu porque um carro apressado passou e dona Bárbara não conseguiu chegar à Igreja e nem pegar os pãezinhos bentos. Foi atropelada, socorrida, mas não resistiu.
 
Hoje, depois de tantos anos em todos os dias de Santo Antônio, busco aqui em Franca a Igreja onde pego pãezinhos bentos e um deles reservo sempre para a minha sogra, dona Bárbara, o meu outro tipo inesquecível.
 
Farisa Moherdaui, professora 

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