Vidas paralelas

Por: Maria Luiza Salomão

Uma vez estava a ler, simultaneamente, as histórias de dois pintores. Uma, autobiográfica, escrita por Paul Klee Diários. A outra história vinha das cartas trocadas entre Van Gogh e seu irmão Theo. 
 
As cartas dos irmãos mostravam a trajetória sofrida de Van Gogh, esse que nunca vendeu, em vida, um quadro. Theo o sustentava, e Van Gogh costumava deixar de comer para comprar tintas e telas. Pintor solitário, de difícil convivência, mesmo com os colegas, não conseguia qualquer companheira, amante, e tampouco mantinha as amizades. Pode-se dizer que seus quadros foram produzidos com sua carne e sangue, que nunca duvidou do valor da sua obra, aclamada décadas depois de morto. 
 
Diários, de Klee, é a autobiografia de um pintor e homem de bem com seus dons, de bem com a vida. Homem bonito, monogâmico, opção que discorre no livro com firme e doce segurança. Desenhava muito bem, daí tirava o sustento, segundo ele. Considerava a pintura o seu maior dom; inovou e criou um estilo original. Conseguiu agrupar outros pintores, fundando uma escola de pintura, do qual foi afamado professor a Bauhaus, que influenciou designers, arquitetos, criou modelos de sensibilidade. Também era músico e ansiava por se tornar poeta. Uau! 
 
Fiquei impressionada com a serena riqueza da vida de um, no sentido harmônico - Klee. No outro, a sofrida dureza da vida, o pessoal e o profissional em conflito constante Van Gogh.
 
Não há garantia para se viver a contento uma vida. Cada um se vira como pode, consegue, e, na maior parte do tempo, segue ditames internos (mais do que externos) sobre o que acha que deve fazer. Ajusta o leme de sua ação (se é que consegue) ao que quer, ou em piores circunstâncias, ao que deve querer! 
 
Poder. Conseguir. Dever. Saber. Querer. Instâncias nem sempre cooperativas entre si. 
 
Sabemos se foi boa e certa a trajetória que escolhemos viver, depois do vivido. Sem direito a passar a limpo os complexos rascunhos das experiências; sem aprendizado por tabela. 
 
Nem sempre distinguimos o que é de Deus e o que é de César: as muitas vidas que vivemos se cruzam em complexos viadutos, ou nos levam, às vezes, a becos sem saída. Nem sempre as rotas pré-programadas são as melhores para nos conduzir a fantásticas descobertas. Desvios podem se revelar miraculosos, mas haja coragem. 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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