Personagens que a vida vai fazendo

Por: Izabel Fogaça

242204
Seu Joaquim tem 76 anos, é motorista de ônibus na cidade de Franca. Joaquim tem dois filhos: o mais velho já é casado, e o mais novo é estudante, muito inteligente, por este motivo, dentro de seu atual emprego, ele ocupa um dos cargos de maior relevância. Há duas semanas, ele “foi abençoado por um neto”. Seu Joaquim está hoje no seu segundo casamento.
 
Seu Fábio não me disse sua idade, mas aparenta ter 85 anos. Ele fez parte do primeiro grupo de teatro de Franca, hoje trabalha com material reciclável. Seu Fábio não me contou sobre os filhos, ou sobre a família. Ele faz questão de fazer suas piadas e falar sobre seu saudoso tempo de teatro. Fábio está o tempo todo sorrindo, mesmo com poucos dentes na boca. 
 
Seu Orelio está sempre muito zangado. É motorista de ônibus aos sábados, dias nos faz questão de mostrar seu mau humor para alguns passageiros. Tive de perguntar seu nome para que ele me tratasse melhor achando que eu faria reclamações a seu respeito.
 
Seu Onofre almoça aos domingos no restaurante onde trabalho, hoje ele não apareceu. É casado com uma senhora qual eu ainda não sei o nome. Seu Onofre coloca a vagem na boca da mulher porque ela nunca toca no prato. Ele prefere se sentar perto da janela, onde fica olhando a rua através da cortina branca que balança. Ele nunca me fala nada, ele apenas sorri e me dá três tapinhas nas costas. 
 
Seu Oscar é cobrador de ônibus, ele parece tingir os cabelos. Aparenta ter 78 anos. Esses dias ele comprou um televisor 3D, eu não sei quais são as funções do televisor, acho que ele também não. Oscar me pediu, na primeira vez que conversamos, para que eu morasse na casa dele, pois a esposa se sentia muito sozinha, e que não gostava de ir à missa aos domingos por esse motivo. Não disse que eu não era católica, apenas fiquei agradecida pelo convite. Ele sempre faz a gentileza de pedir ao motorista do ônibus que pare na porta de minha casa, mesmo que não tenha ponto. 
 
Seu Xavier aparenta estar na casa dos 70. Sempre compra o almoço para comer em casa, e vive do sonho de fazer a própria marmita de salada, mas nunca tem tempo. Seu filho trabalha nos Estados Unidos, e hoje com os olhos marejados ele disse que sente saudades, que sempre que seu filho vem, eles comem filé a JK num dos melhores restaurantes de Franca. Seu Xavier não gosta de feijão tropeiro, mas adora feijão branco.
 
Tenho saído aos domingos de manhã com o seu Joaquim: ele dirige o ônibus que me leva para o trabalho; tenho me divertido com o senhor Fábio, lá perto do mercado que ele busca material reciclável; aos sábados, confesso que fico aborrecida com o senhor Orelio, mas juro que vou tentar que ele seja mais compreensível com todos nós; lágrimas nos olhos aparecem quando seu Onofre conversa com a esposa, quando acaricia ou segura sua mão, sem esperar nada em troca. Sinto dentro de mim que as coisas não precisam ser tão duras; tenho passado tardes de domingo com seu Oscar, afinal são vinte e cinco minutos do centro até minha casa, minutos valiosos quais ele me conta sobre as coisas que mais gosta; tenho aprendido sobre culinária com o senhor Xavier, e um dia farei a receita da salada com bacon. 
 
Enfim, ando refletindo sobre o que o relógio também está fazendo comigo, e como dentro disso posso tentar ser melhor para o mundo. É uma pena que meus novos amigos não podem sair para tomar uma cerveja, ou ir num lugar legal para escutar um blues, mas eu ainda posso fazer isso enquanto falo deles.
 
Izabel Fogaça, 4º ano  História/Unesp

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras