Catarse

Por: Janaina Leão

A paixão roeu minha carteira de trabalho, meu diploma, minhas fotos, meus CDs, minhas pernas. A paixão alterou meu DNA. A paixão me fez mais lisérgica que qualquer filósofo de rave. A paixão roeu minhas unhas até a carne, os piercings dos meus mamilos, roeu minha vaidade. Curvei-me a outro Deus que não eu. 
 
A paixão me filmou chorando e tornou pública toda a minha selvageria. A paixão calou minha etiqueta, minha gentileza, minha compaixão: ela botou um espelho enorme na minha frente daqueles que a distorção leva a crer que você é menor, sabe?
 
A paixão furou meus dois pés bem no meio da sola, que é para doer ao ficar de pé. Manchou meu batom e furando a ponta de todos os meus dedos usou meu sangue como blush, como se me escolhesse num campo de concentração pelo rosto corado que demonstra saúde é essa, a Eva- costela que deve morrer ao pecar. 
 
A paixão rasgou minhas Bíblias e meus livros de filosofia, roubou todas as moedas que meu Buda tinha a seus pés. Quebrou minha louça de porcelana, riscou meu carro, deu nó nas linhas do meu destino. 
 
A paixão me deixou idiota botando Deuses sem nome no meu altar, e fascinada fui devota até o fim, e cada fim levou a outro açoite. Usei máscaras de infâmia e ardi nas mais diversas fogueiras, inclusive na que eu prendi o fogo. A paixão revelou meus segredos e despedaçou meus sonhos. Fiz trinta e três tatuagens, por que a paixão me ensinou que a carne tem uma queda pela dor quando não está em contato com outras carnes. Prometheu amor e não deu.
 
 
Janaina Leão, psicóloga
 

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