Palavras também morrem

Por: Everton de Paula

Certas palavras de língua portuguesa caem em desuso porque  o objeto que elas nomificam caiu em desuso. É o caso, por exemplo, de galocha. Talvez seja provável que a nova geração brasileira de hoje, em sua maioria, nem saiba do que se trata. É uma capa de borracha, com o formado de sapato, que os homens colocavam em seus calçados nos dias de chuva, para se protegerem da água das enxurradas, em calçadas e ruas. Não se usa mais galocha; aos poucos, esta palavra não foi mais sendo empregada.
 
Outras se restringiram a determinadas regiões geográficas por questões histórico-culturais que não cabem aqui para desenvolvimento. Vosmecê é um exemplo, forma verbalizada ainda encontrada em certos rincões do interior de Minas e Goiás.
 
O interessante é notar outras palavras cuja ação, fato, objeto ou personagem que identificam continua em uso, mas a palavra morreu, deu lugar a outra. Aqui, sim, a lista é grande. Não ouço mais a palavra capote, no sentido de sobretudo, de casaco pesado. O casaco ainda se usa, mas a palavra que o denominava desapareceu aos poucos. Ceroula já foi definitivamente substituída por cueca. Algum jornal ousaria escrever alcaide em lugar de prefeito? Nosocômio, também, em lugar de hospital, já se encontra nos seus suspiros finais. “Isto sói acontecer”, ou seja, “Isto acostuma acontecer”. Soer em lugar de acontecer, sabia dessa? Se sabia, teve aulas de Filologia Portuguesa com algum especialista, ou possui um bom vocabulário. As palavras, neste cenário, se sucedem: cagalhota (mulher de baixa estatura e de pescoço curto), maçaroca (emaranhamento de fios ou cabelos), tísico (rapaz muito magro ou doente), remelado (com sintomas de conjuntivite bacteriana ou disfunção lacrimal), boticário (farmácia), cafajeste (pessoa de má índole)...
 
Não ouço mais a palavra estrupício (coisa esquisita, entre outros significados, como mixórdia). Olha aí: mexeu e apareceu mixórdia, que é a mistura desordenada de coisas diversas...
 
Desacorçoado é termo interessante. Há uma forma variante raramente usada (descoroçoado); os dicionários trazem o sentido de “abandonado”, mas já significou, por muito tempo, desesperançado, sem ânimo. Caiu em desuso.
 
Não ouço mais pessoas dizerem ambulância, ou automóvel, ou ainda motocicleta. Até estrangeirismos entram na roda do desaparecimento: você sabe do que se trata um chauffeur de praça?
 
Quanto ao aspecto culto, de há muito desapareceram do cotidiano palavras como macambúzio, circunspecto, casmurrice, soturno... Parece que a tal velocidade da globalização, a falta de tempo e a incontrolável pressa em se comunicar o máximo possível com o menor número de palavras cabíveis tenham contribuído fortemente para esses desaparecimentos. É quando surge a lei do menor esforço. As palavras não apenas estão desaparecendo, cedendo lugar a outras, mas também encurtando. Veja bem: vossamercê>vosmecê>você (>ocê>cê) – “Cê tá bom?” Motocicleta virou moto, pornografia pornô, extraordinário extra, cinematografia cine... Preguiça? Não, apenas um aspecto que denota a dinâmica da língua, da comunicação verbalizada.
 
Em Franca, por exemplo, quando se quer pluralizar determinada frase, pessoas há que colocam no plural apenas a primeira palavra, deixando todas as demais no singular, como se ficasse à espera de que seu interlocutor entendesse algo próximo a “se a primeira palavra da frase estiver no plural, significa que a frase é plural”. Vejam: “Ques dia quente!”, “Ques aula difícil!” “Ques menina legal, meu!”
 
Não só certas palavras morrem. Algumas expressões, que tiveram amplo emprego,  foram ficando à margem da comunicação oral e escrita. Veja algumas: abraço de tamanduá (ser traído), andar nos trinques (ser elegante), bagunçar o coreto (atrapalhar), cargas d’água (por que motivo?), estar na crista da onda  (estar na moda), ver navios (dar-se mal em algo, aguardando o indeterminado)...
 
Eu só vejo com certa reserva, com preocupação, com tristeza mesmo, quando certas palavras de civilidade deixam de existir por conta da má vontade ou má educação do falante. Dói aqui saber que “Muito obrigado!”, “Por favor!”, “Por gentileza”, “Bom-dia”, “Até logo!”, “Tenha uma boa tarde!”, “Seja bem-vindo!”, “Vem de lá um abraço!”, “Seja feliz” sejam expressões em desuso. Significa que não apenas certas palavras estão caindo em desuso, mas a própria civilidade! 
 
Mesmo assim, meu bom e paciencioso leitor, desejo-lhe, com o melhor dos meus sentimentos, um excelente final de semana junto aos seus queridos. 
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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