Saber viver

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Ela nasceu ao pé da serra, junto a um olho d’água perene que escorria num fiozinho, entre as taiobas, deixando gotas transparentes em suas folhas verdes sagitadas, ofertas dadivosas da natureza. Após longo percurso, entre pedras e campinas, ele despencava, delicadamente, de uma alta rocha, formando suave cachoeira e desfazendo-se em espumas, ao tocar o raso poço ao qual se juntava , aninhando-se, antes de seguir em frente. Era lá que ela levava seus filhos para sentirem o frescor daquela água pura e cristalina. Crescendo como uma avezinha, livre e viçosa, tornou-se uma jovem meiga e prendada. Como uma fruta madura que cai da árvore no momento certo, conheceu o amor, que chegou montado em um belo cavalo tordilho, e foi, logo, dizendo a que veio. O garboso neto do coronel queria se casar. Com o consentimento dos pais, após cândido véu e grinalda de flores de laranjeira, foi morar com ele na casa de seu avô. Considerada por todos, com sua docilidade e brandura fazia parte daquela nova família. As tias a assistiam no nascimento dos filhos, cuidando dos pequenos e preparando-lhe caldos de galinha com farinha de mandioca ou de milho. O esposo trabalhador e inteligente providenciava para terem suas próprias terras e casa grande para a família numerosa que iam formando. E, assim, educaram as crianças em harmonia, unidos no trabalho, no lazer, nos estudos. As filhas mais velhas cuidavam dos menores que conforme cresciam faziam pequenas tarefas. O destemido pai formou filhos persistentes que prosperaram. Ao redor da mãe, a família enlaçava, fortemente, histórias, experiências, sorrisos, dissabores e sucessos. Mesmo tomando rumos diferentes, em diversas profissões, nunca deixaram afrouxar estes laços familiares constituídos. O pai cedo partiu, mas ela teve uma vida longeva, feliz, amada pelos seus familiares Aquele vale verdejante e luminoso em que nasceu determinou sua vida. Seu mérito foi vivê-la como ela se apresentava, sem os atropelos que a ansiedade suscita. Paz, calma, serenidade, fé foram os instrumentos tocados por ela, na execução da sinfonia de sua existência. 
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 
 

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