Monotonia no Paraíso

Por: Everton de Paula

Há quem acredite em coisas que são impossíveis diante da razão pura e simples de que somos dotados, nós, os pobres mortais. Eu não consigo entender como alguém possa acreditar ainda nas promessas do nosso governo vermelho. Eu não posso acreditar que o PT não tenha nada a ver com as crises internas da Petrobras, da mesma forma que eu não consigo crer que Lula ”não sabia de nada“ e continua não sabendo de nada que ocorra bem embaixo do seu nariz, possivelmente até sob suas ordens.
 
Bem, mas isto é assunto de outro artigo em maturação que tenho aqui perto de mim, reservado para a época mais próxima das eleições. Vamos ao de hoje.
 
Há ainda quem acredite piamente na história de Adão e Eva, não como algo advindo das analogias bíblicas, mas sim exatamente como está escrito no livro santo. 
 
Quando criança, nas aulas de catecismo, este meu espírito terrivelmente inquiridor já me perturbava com perguntas como ”Mas Eva nunca foi criancinha?“ ”Adão não tinha pai?“ ”Como alguém pode nascer do barro e do sopro?“
 
E o caso da costela, então?
 
Bem, fizeram-me engolir a história goela abaixo, o que tive de aceitar se não seria o excluído na fila da primeira comunhão, o que, convenhamos, seria de cara uma decepção para meus pais, para Ana Maria, para o quarteirão todo, um escândalo paroquial.
 
É claro que aquelas perguntas ingênuas de criança hoje têm um significado especial. Vêm revestidas de valores semântico-religiosos, exegéticos mesmo, que devem ser pontuados no contexto em que são ditas, ou revividas.
 
Se o fato de se acreditar piamente nas histórias relatadas na Bíblia faz alguém tornar-se bom, para que criticá-las ou tentar desvendá-las à luz da intelectualidade moderna?
 
Melhor deixar as coisas como estão, cada um com sua crença ou com sua crítica velada.
 
Mas não posso deixar de exercitar alguma imaginação.
 
Vocês já pensaram como deveria ser a vida de Adão e Eva no paraíso antes do episódio da maçã? Nenhuma expectativa de acontecimento, nenhum susto, nenhuma prestação a pagar, nenhum problema a resolver, nada que pudesse alterar os ânimos, provocando uma reação em forma de raiva, protesto, desejo de mudança, ou mesmo de agradecimento. Um dia igual ao anterior, e assim sucessivamente numa monotonia cotidiana infernal... Ou paradisíaca, se quiserem.
 
A inevitável repetição cansativa dos mesmos atos, todos os dias.
 
Aí vem a coceirinha da quebra de paradigmas, o desejo de reinventar o cotidiano.
 
Foi então que Eva inventou a história da maçã, contrariando ordens vindas do altíssimo (ainda bem). Desorganizou o estabelecido, o que exigiu novos padrões de comportamento. Adão arranjou um emprego e foi trabalhar. Eva arrumou umas roupas para se vestir. Pecaram: contrariaram as regras celestiais (e até hoje pagamos pelos prazeres que sentiram). Tenho aqui comigo que nada foi em vão.
 
Depois das quebras de paradigmas, eles se encontravam à noite e tinham, enfim, sobre o que conversar. Havia chegado ao fim a monotonia no paraíso e a vida de verdade se iniciava.

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