Roxo em azul

Por: Eny Miranda

"E ela continua viva dentro de nós."
 
A frase em epígrafe, ontem a recebi da Fernanda, a primeira nora. Encimava uma foto de mamãe com a bisneta, Luíza. 
 
Foi pousar os olhos na imagem e escutar, em viagem de retorno, “o galope certeiro dos dias/ saltando as roxas barreiras da aurora.” O muito tempo, num repente, vira hoje.
 
Mamãe, blazer azul-marinho, blusa branca de seda, colar e brincos de pérolas... e aqueles cabelos de neve em noite de lua cheia: não absolutamente brancos, que lua cheia pinta o branco de prata lavrada e polida, assim, brilhando, matizando, encantando. Luíza, menina, casaquinho de plush e o pequeno poodle nos braços: ambos, plush e poodle, macios e - agora, sim - só brancos. Acabamos de ver Titanic, no cinema, e já estamos em casa, no varandão dos fundos, que dá para o gramado.
 
Luíza, vai lá! Fica pertinho da vovó Maria! “Péra” aí, mamãe, vou pegar a Pretty! Pretty, vem cá, fofura! Vovó Ny, vem também! Não, eu bato a foto! Está tão linda esta composição... 
 
Mamãe põe a mão esquerda sobre a cabecinha loura da bisneta, como a abençoá-la, e sorri aquele mesmo sorriso de meu último sonho: brando, lábios unidos, comissuras levemente elevadas, olhar sereno e incógnito... Não, não incógnito, agora: amoroso.
 
Da cozinha chega o convite: cebola e alho dourando no óleo, e então os primeiros pedaços do saboroso jantar chiam na panela, refogando e dourando junto. A noite é de gerânios abertos nas jardineiras e tangerinas maduras no quintal. Sinto que maritacas andaram verbalizando vida tarde afora e agora descansam, dão lugar aos pirilampos, leves e silenciosos, com suas lanterninhas de vidro verde, flutuando e piscando, piscando e flutuando, no meio do nada.
 
A boca noturna, gelada e faminta do mar; o medo e a dor ficaram presos na tela do cinema. (Suas verdades já vão tão longe no tempo...) Conosco, veio a certeza do amor, este presente sempre aberto a outros espaços - seguros portos de amanhecer.
 
Mas isso já foi. 
 
Em mim, mamãe continua viva, sim, junto com o roxo desta saudade repisada: a do azul de uma noite alva de pratear cabelos e despertar gerânios, pirilampos e certezas boas.
 
Ah, meu Deus, me deixa saltar as barreiras da aurora de volta ao Leste; cavalgar os dias pelos caminhos reversos da lua e do sol: de alma, de corpo, de mãos, de braços, de abraços, de vida... de vero.
 
Ah, Deus meu, neste dia de todas as mães, me dá um presente de filha: me dissolve este roxo repisado, até ele ficar de novo azul.

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