Gente como a gente

Por: Maria Luiza Salomão

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O filme amealhou, em 1981, Oscar de Melhor filme, Melhor ator coadjuvante (Timothy Huston), Melhor Diretor (Robert Redford, estreante na direção), Melhor Roteiro Adaptado (Alvin Sargent).
 
Nesse filme, observamos a culpa que impregna a vida dos que sobrevivem à perda afetiva de um ente amado. A música dolente e triste é uma adaptação feita por Marvin Hamlisch, de um compositor barroco, alemão do séc. XVII, Johann Christoph Pachelbel (a canção: Canon).
 
Um jardim outonal amplo e vazio, nas primeiras cenas, prenuncia a tragédia de uma família comum, pais e dois filhos homens. Um deles morre em um acidente de barco no mar. Aos poucos, vamos conhecendo a forma como cada um da família reage a essa perda. A mãe culpa o filho sobrevivente de não ter sido ele a morrer, ao invés do outro. O pai fica angustiado ao perceber a intensidade da dor do filho sobrevivente, que tenta o suicídio, e com o frio tratamento da mãe, que não lhe demonstra qualquer empatia pelo seu sofrimento. 
 
O pai abre uma possibilidade de reencontro familiar, de cada um com sua dor. O final fica em aberto, e é melhor que todos assistam para conversarmos sobre a trama. 
 
No filme vemos dois tipos de culpa. 
 
A mãe tem uma culpa ligada à própria sobrevivência do seu “eu”. Ela se mostra robotizada, cheia de ódio, e blindada aos sentimentos, aos dela e aos dos seus íntimos. Sente-se perseguida pelo que sente uma cobrança de todos em relação a ela. O marido vai, progressivamente, observando atitudes que o contrariam, na esposa. Em uma cena, relembra a sua esquisita preocupação, no funeral do filho, com os sapatos que ele, pai, usaria. Um evidente deslocamento da situação da dor do luto, nela. 
 
A mãe demonstra sentir o desejo, talvez inconsciente para ela, de querer que o filho sobrevivente, Conrad, morresse ao invés do outro. A sua obsessão pela limpeza, a sua rigidez, sugerem que ela poderia estar às voltas com um “pensamento sujo”, algo que não poderia pensar. Mas não podemos amordaçar, ou nos livrar do nosso inconsciente. 
 
Na excelente interpretação da atriz, Mary Tyler Moore, vemos que a mãe cobra uma infelicidade igual à dela, de todos. Ela se encarcera ao não permitir sofrer a sua própria tristeza. Não podendo se sentir triste, ela não admite que alguém a chame para a realidade possível, de comungar a tristeza do luto, comum, com o marido e com o filho sobrevivente. Isola-se em um mundo de “faz de conta”, em que convive, trabalha, coloca a casa em ordem (funcionalmente), mas não interage intimamente com as emoções. O pai vai percebendo, aos poucos, a imensa defesa, reveladora da fragilidade da esposa, sua dificuldade em expressar sua dor e sofrimento. 
 
Em uma cena, antológica, o filho abraça a mãe, tentando alguma conexão afetiva, e ela fica dura, coluna vertebral empinada e rígida, com uma expressão paralisada na fisionomia, não esboçando qualquer gesto de correspondência ao afeto do filho. O pai, abismado, observa a cena.
 
Mais sábio, o pai oferecera ajuda profissional para o filho, que, ao começar uma análise, vai desvendando a sua culpa (injustificada) e a dificuldade que não é dele, mas da mãe, de se aproximar afetivamente. O filho, amoroso, vai se abrindo para novas relações, e tenta se aproximar da mãe, mas não encontra reciprocidade. 
 
A culpa do filho tem outra tonalidade afetiva: ele se sente responsável pela morte do irmão, e quer segui-lo, matando-se. Mas, aos poucos, vai percebendo que pode, e deve, se ligar à vida. Com a ajuda do terapeuta pode perceber que não foi responsável pela morte do irmão, e se responsabiliza pelo próprio sofrimento, lamentando e tendo alívio. Vê-se com maior força e apego à vida do que o irmão morto, e que isso não é motivo para se punir. 
 
O pai é a figura articuladora da família. No abraço dos dois, há o reconhecimento do amor que os une, um laço de vida a superar a dor pela perda, do filho e do irmão. O amor superando o ódio; a comunhão afetiva dos sobreviventes superando o vazio deixado pela perda: um perdão por continuarem vivos.
 
Curiosamente, a atriz Mary Tyler Moore sofreu, na vida real, com o suicídio do seu filho Richie, oficialmente divulgado como um acidente, no ano da filmagem, 1980. Ela também se separou do marido, naquele ano. O ator que fez o filho sobrevivente, Timothy Hutton, também estava de luto: pelo seu pai, também ator. 
 
Esse é um filme que merece ser revisto, sem dúvida. Ainda atual, como são as tragédias humanas. Um filme direto, sensível. Mais um sábado, bem aclimatado ao outono francano. Esperamos todos, gentes como a gente, para uma conversa amorosa e acolhedora.
 
 
O diretor
ROBERT REDFORD, 78 anos, foi sex symbol nas décadas 60, 70. É filiado ao Natural Resources Defense Council, envolvido com a defesa do meio ambiente e dos direitos dos índios; dirige a Redford Foundation. O filme Butch Cassidy, 1969, lhe deu tanta notoriedade como ator, com o personagem Sundance, que Redford conferiu o nome ao Festival de Cinema, localizado no estado americano de Utah, criando o Sundance Film Festival, para filmes independentes.
 
No seu currículo constam inesquecíveis personagens, como ator: Golpe de Mestre, 1973, Nosso amor de ontem, 1973, e Entre dois amores, 1985. Como diretor, realizou: Nada é para sempre, 1992. O Encantador de Cavalos, 1998, Quiz show, 1994. 
 
Em 2001, ganha o Oscar pela “inspiração aos cineastas criativos e independentes”, pela atuação como ator, diretor, produtor e também como o criador do Sundance Film Festival. A revista Time, em abril de 2014, o colocou entre as 100 pessoas mais influentes no mundo, declarando-o o “Pai (godfather) do Filme Independente”. 
 
Redford tem uma casa nas montanhas de Utah e caminha sozinho por semanas, longe de New York e dos agitos. Casado, por 27 anos, com Lola Van Wagenen até 1985, teve 3 filhos. Em 2009, casou-se com a artista plástica alemã Sybille Szaggars, companheira desde 1996, depois de ter declarado que não mais se casaria. 
 
Gente como a Gente é adaptação do livro homônimo, de Judith Guest, e teve seus direitos autorais comprados, antes de ser editado. 

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