Amor proibido

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

A vida de Odete parecia ser uma rotina interminável, sufocante e sem maiores alegrias, mas ela viveu grandes emoções no passado e estas acariciavam sua alma, sustentavam seus dias e embalavam suas noites. Mocinha sonhadora dos anos cinquenta, aprisionada pelas convenções sociais, somente ia ao Colégio de Freiras, acompanhada pelo irmão, tão severo quanto o pai. Sentia o desabrochar de sua sensualidade e a impossibilidade de namorar alguém a não ser que este amor entrasse em sua casa. E foi isto que aconteceu, mas através das ondas do radio, na voz potente e máscula de um locutor que apresentava um programa musical com canções românticas, todos os dias, ao entardecer. All the Way, na voz de Frank Sinatra, era o prefixo que o iniciava e acelerava os corações das moças inocentes daquela cidadezinha do interior. Ao som da música ele lia cartas de amor enviadas pelas ouvintes. Odete e muitas outras se apaixonaram por ele e, através de uma amiga, enviou-lhe uma carta, linda e aromatizada com gotas de seu perfume. Ao recebê-la, entre outras, ele sentiu uma sensação forte, num misto de curiosidade e desejo. Respondeu rapidamente e inúmeras se seguiram com promessas e planos oníricos. A ansiedade em se conhecerem levou-os a uma atitude ousada. Nos fundos de sua casa, um portão favorecia a passagem para a rua. À noite, quando todos dormiam, ela o abriu e, furtivamente, foi encontrá-lo em lugar determinado, onde se amaram movidos por uma paixão sem limites. Não durou muito este idílio, pois ele arrefeceu seus sentimentos. Diante do desespero dela, contou-lhe que o amor deles era impossível, pois era casado. Estas palavras a acompanharam a vida toda como os ventos acompanham as tempestades. A ela, só lhe restou sofrer amargamente aquela desilusão, em segredo, sem, no entanto, nunca deixar de amá-lo. Viveu reclusa por toda a vida, na casa dos pais, reavivando sua memoria qual um fogo que se atiça para mantê-lo sempre vivo. Todos os dias, no mesmo horário, ao cair da tarde, ela ouvia a música de sua história e relembrava os fugazes momentos de felicidade que viveu.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras