Amarelo Manga não é cor-de-rosa

Por: Sônia Machiavelli

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O forte cunho autoral, alguns pressupostos da estética naturalista, leituras marxistas e psicanalíticas tornam o filme Amarelo Manga, do diretor Claudio Assis, uma obra original no cenário da cinematografia brasileira, marcada atualmente por pontos de vista superficiais ou unilaterais a respeito da vida e dos seres humanos. Mais contundente, denso e perturbador que Cidade de Deus, foi avaliado por Luiz Fernando Carvalho, o diretor de Lavoura Arcaica, como ‘a semente de uma nova dramaturgia cinematográfica.’ Decorridos 12 anos desde sua estreia, nada parecido surgiu nas telas, sendo de se supor que a semente não produziu frutos. Até se entende, quando se observam nossos tempos avassaladoramente inundados por hedonismo, consumo, fruição descompromissada, preguiça de pensar. Este não é um filme que se perfila como simples entretenimento nem é para ser visto com a família. Sua concepção e seus personagens induzem o espectador a questionar a realidade social de um país que se mostra vário e violento, e o ser humano que guiado apenas por seus desejos surpreende e assusta. Entre moradores de palafitas sobre o mangue e executivos em apartamentos à beira mar, esboça-se a síntese de um segmento da população brasileira personificada nos moradores do Recife. 
 
As imagens, do começo ao fim da história, impressionam pelo caos, pela precariedade, pela sensação de que tudo pode desmoronar a qualquer instante e só sobrevive por algum milagre que não se adivinha de onde vem. A decadência física e o movimento dos seres compõem o microcosmo do Texas Hotel e do Bar Avenida, no Centro Velho da capital recifense, separados por ruas de movimento: são espaços urbanos, coletivos, que se prestam, como nas obras de cunho naturalista, à formulação de uma tese sobre a maneira de viver das classes mais pobres da população, aquelas que estão na base da pirâmide. Se no Aluízio de Azevedo de O Cortiço, só para citar um escritor brasileiro da corrente, este espaço é ocupado por trabalhadores, pedreiros, açougueiros, vendedores, em Amarelo Manga ao lado destes irrompem marginalizados, homossexuais, donas de casa, vendedores ambulantes, traficantes e ex-prostitutas. 
 
O dono do hotel é Bianor, mas quem dá as cartas é o polivalente homossexual Dunga ( Matheus Nachtergaele), apaixonado pelo açougueiro Wellington (Chico Diaz), que trai a esposa evangélica Kika (Dira Paes), responsável por uma das cenas mais chocantes da filmografia de todos os tempos. A proprietária do bar é Lígia (Leona Cavali), que recusa qualquer tipo de relacionamento sexual e rejeita ostensivamente o traficante Isaac (Jonas Bloch), que aluga cadáveres para alvejá-los a bala de revólver. Este universo mórbido, exposto visceralmente e sem qualquer maquiagem, tem na figura do Padre ( Jones Melo), aquele cujo discurso pessimista parece refletir o olhar adotado pelo diretor na construção do filme: “O ser humano, heim! O ser humano é estômago e sexo. E tem diante de si uma condenação. Terá obrigatoriamente de ser livre. Mas ele mata e se mata com medo de viver.” 
 
A respeito desta frase importante no contexto da narrativa cênica, já se disse que ela constitui negativamente o desejo, entendendo-se que a livre realização deste, sem obstáculo algum,’ leva a uma equivalência entre o homem e a fera.’ É uma questão na qual pensar, principalmente diante do comportamento de personagens que ignorando convenções são os únicos na história a promoverem mudanças em suas vidas. ‘ O pudor é a forma mais inteligente de perversão’, diz o homem de camiseta de time de futebol e discurso freudiano ao ouvido da ex- pudica Kika, a quem tudo era perdoável, à exceção da traição.
 
Não há completa linearidade em Amarelo Manga e sim flashes exibidos de forma sempre crua. Não há protagonistas, mas personagens que têm o mesmo peso e equivalência na trama. Não há uma moral à qual defender ou condenar. Não há desfechos para as pequenas histórias que mal chegam a se entrelaçar. Há fatos pulsantes que o espectador mais interessado poderá reunir em mosaico emblemático de grande parcela do povo brasileiro que ainda vive à margem da margem. E há as palavras que pelas conotações promovem um movimento introspectivo, como as que definem e listam o que é a cor escolhida para título, metáfora de tudo o que se mostra ruim: colchões mofados, paredes descascadas, rostos desnutridos, remelas, escarros, dentes envelhecidos, mesas esconsas, chapéus gastos, carros velhos, cabos de peixeiras, coisas ameaçadas pelo tempo e a luz hepática que o diretor de fotografia Walter Carvalho capturou por inteiro banhando cada fotograma do filme, premiado em festivais de Brasília, França, Berlim e Miami. Claudio Assis é intenso na busca da realidade. E não deixa por menos.
 
O diretor
CLAUDIO ASSIS tem 54 anos e é pernambucano. Dele já se disse, retomando o poema de João Cabral de Mello Neto, que é ‘faca só lâmina’. Para os amigos, faz poesia raivosa nos seus filmes. ‘Trabalhar com o Cláudio é um momento de revisão de nosssa trajetória. Um encontro para pensar e fazer o que entendemos como cinema’, explica Matheus Natchergaele, o Dunga de Amarelo Manga. 
 
Do início de sua carreira como ator e cineclubista em Caruaru, até a direção do primeiro longa-metragem, o filme aqui resenhado, o diretor construiu caminho que inclui a direção e produção de curtas, documentários e longas. Os últimos são resultado de profunda reflexão sobre a linguagem cinematográfica e seus meios de produção. Sua obra dialoga entre si e constrói um discurso cinematográfico próprio, focado na reflexão do comportamento humano. Seus longas, tendo sempre o Brasil como assunto e cenário, são projetos de baixo orçamento, embora na tela não transpareçam as dificuldades e limitações enfrentadas para a realização. Amarelo Manga custou menos de R$500 mil, orçamento considerado baixo, pois um filme do mesmo padrão beira os R$3,5 mi.
 
Entre seus trabalhos de direção destacam-se, além de Amarelo Manga, Baixio das Bestas (2006), Chico Science - Retratos Brasileiros (2008); Vou de Volta (2007); A Febre do Rato (2011). Esteve na co-direção do bonito Baile perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, uma história que tem Lampião e Maria Bonita como protagonistas. Também dirigiu curtas
 
Matheus Natchergaele e Dira Paes, que atuam em Amarelo Manga, tornaram-se amigos do diretor de estilo limpo e cirúrgico. Mais que amigos, diz ele, ‘somos irmãos’. Com Matheus fez A Febre do Rato e Baixio das Bestas, onde Dira também tem papel de destaque.  (SM)

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