Viagem

Por: José Borges da Silva

Lembro-me de ver o Sol nascendo vermelho e, ainda um pouco antes de mostrar o seu disco enorme, os seus raios fulgurantes produzindo imagens transcendentais com as sombras de árvores gigantes, ou de uma ponta de morro que se erguia no horizonte Leste. Eram frias as manhãs daqueles tempos distantes, mesmo nas estações mais amenas, características do lugar conhecido como Resfriado, ainda no interior de florestas densas de capoeirões e cerrados sem fim do Sul de Minas Gerais. Sobre as areias do estradão, iniciamos viagem. Caminhávamos até que o Sol novamente se punha do lado oposto do horizonte e já divisávamos melhor os novos horizontes, novas paisagens, as cidades. Vieram as noites, várias noites, e dias, de Sol e de chuva, dias de intenso frio e prosseguíamos, juntos, minha mãe, eu e meus irmãos. Meu pai, que caminhou pouco com a gente, ficou pelo caminho ainda na flor da idade, vítima da terrível doença causada por um hospedeiro do inseto barbeiro, que habitava casebres de pau a pique e o coração de vários camponeses da região. Embarcamos em jardineiras e trepidamos por estradas poeirentas e conhecemos pessoas diferentes e diferentes formas e vida. Conhecemos olarias, fábricas de sapatos, de queijo, supermercados, os primeiros que surgiram. E como era especial nos reunirmos aos sábados de fim de mês para fazer compras no supermercado! Era extraordinário escolher com as mãos boa parte dos poucos produtos que comprávamos com o salário das fábricas. Veio a maturidade e começamos a nos separar aos poucos. Vieram outras pessoas, filhos nossos, os netos de minha mãe e já somos uma comunidade. E veio a televisão, e o homem pisou a Lua. E veio o computador e a Internet, e já conhecemos o mundo todo e outros mundos. O tempo passou e nos estamos juntando de novo. Minha mãe veio para minha casa e os meus irmãos nos visitam regularmente. Hoje estamos nos voltados para outras dimensões da vida. Vez ou outra, reunidos, realizamos grandes viagens ao passado e até, já sem  tanto entusiasmo, auscultamos o futuro. E aprendemos a valorizar o presente, especialmente nos momentos em que estamos juntos, nós os pioneiros, e as novas gerações que vêm chegando, agarradas aos seus novos equipamentos eletrônicos de viagem.

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