Questão de tempo

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Naquela plácida manhã de outono, as conversas entre mulheres que se encontravam no Parque das Águas causavam sensação, instigando a curiosidade, com o anúncio da apresentação daquele cantor que pertencera à Jovem Guarda, nos idos anos 60, num promissor encontro romântico. Muito se discutia sobre a programação surpresa o que criava uma ansiosa espera.
 
Veio a noite tão comentada e diante de um imenso palco, iluminado, músicos a postos, acomodavam-se centenas de pessoas, entre adultos, jovens e crianças para assistir à execução do artista. As faiscantes cortinas vermelhas abriram-se e surgiu um senhor de setenta anos, usando um terno branquíssimo, gravata, cinto e sapatos pretos, de porte elegante, magro, ágil, cabelos brancos volumosos e traços delicados. Sua tez dourada indiciava ascendência europeia. Era um artista. O tempo não o destruiu, apenas o transformou.
 
Iniciou cantando lindas músicas da época, com voz naturalmente envelhecida, mas forte e perfeitamente afinada. Descia as poucas escadas que o separavam do público e abraçava as senhoras, outrora mocinhas fanáticas pela Jovem Guarda que tiravam fotos dele e com ele. As luzes dos celulares brilhavam para este intérprete, com cinquenta e três anos de carreira, nacional e internacional, de uma vitalidade incrível. Em canções populares italianas conduzia o coro com gestos e entoações. Seu repertório variadíssimo revelava admirável memória. O desempenho no palco estava cativando a todos quando, numa pausa entre canções, ouviram-se algumas vozes jovens e masculinas gritarem Lepo lepo ! Ele não entendeu e esforçando- se para ser gentil com a plateia, pediu que repetissem e ouviu, de um grupo maior, bem mais forte, Lepo lepo! Todos esperavam uma reação. Ele disse, firmemente, que não cantaria aquela música e iniciou uma seleção com Bandeira Branca! A pista ficou pequena para os que queriam dançar e o carnaval fora de época animou a todos. A figura carismática do cantor fez jus aos prenúncios da manhã.
 
Na noite seguinte, ocorreu um novo espetáculo com músicas da atualidade e coreografias associadas. E o Lepo lepo aconteceu... Há tempo para tudo, é só esperar os momentos adequados. No entanto, na atual cultura do imediato, os jovens não esperam...

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