O vazio existencial

Por: Maria Luiza Salomão

Para Janaína
 
 
Quem acordou um dia com um oco no peito, sentindo-se coisa e não gente? 
 
- De repente, um enfaro, nada apaixona, nada faz mover um fio de cabelo?
 
- No raio de um instante, o desejo de sumir no mundo, repugnância pelo que vê, toca, ouve, fala; enjoo da própria rotina, vista, assim, sem sentido? 
 
- Nauseado, a vomitar as vísceras vorazes de “mais e mais” sensações que, no andamento, lhe parecem bestas, inúteis, vãs? 
 
- No triz de uma madrugada, pergunta-se: o que faz, fez, fará aqui, agora, com o que escolheu, batalhou, alcançou em parte, ou...?
 
- No átimo de um milionésimo segundo, se vê em um carnaval fora de hora, todos lhe parecem emborrachados de felicidades compradas ou falseadas. Para, abismado, olhos vítreos, se sente um ET, alienígena da grotesca coreografia de “família Doriana”, de “adolescência eterna”, de “politicamente correto”, etc. e tal? 
 
Quem não? 
 
Sensações passageiras, que nomeamos como tédio, desesperança, desespero, angústia. Realista para uns, pessimista para outros, alguns nomeiam “isso” de lucidez. Lucidez estranha, um facho de escuridão como disse Freud, para enxergar o que não emerge quando sob holofote. 
 
Falta de sentido, falta de significado do vivido no passado e do que se vive no presente, mas também para o por vir, subjuntiva e futura mente: um vácuo, um oco, o vazio, o nada.
 
Alguns veem a incompletude e a vizinhança da morte. Outros descrevem o cavo do “nada”, sem possível preenchimento. Certezas em ruínas: uma Pompeia interior.
 
Outros ainda, aterrados, sentem-se fantasmas deambulantes do que pensam ser, não sentem que têm uma existência real, substantiva, na base do “eu sou”, ou melhor, do “eu é”. O eu existe para o outro, para o mundo? Apagar o passado e o futuro é Pompeia, sem o museu a declarar que existiu Pompeia. 
 
Preencher esse vazio com coisas concretas ou com projetos (vá lá, uma abstração) é desviar da capacidade de se sentir já, aqui. É preciso não ser analfabeto emocional, ou não ser alfabetizado funcionalmente apenas nas emoções. Se não conseguir relacionar emoção/situação/experiência, não terá consciência do diagnóstico, do tal vazio existencial.
 
Se esse raio cai muitas vezes no mesmo lugar, atenção, está na hora de sintonizar consigo mesmo. 
 
A oficina está do lado de dentro de você. 

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