O Orador

Por: Everton de Paula

O professor Nicodemus era dessas criaturas inesquecíveis pela facilidade que tinha em cultivar amigos, pela dedicação com que conduzia suas aulas, pelo respeito que esbanjava para com o próximo, pelo amor à família . Difícil era lhe arranjar defeitos; talvez o vício no cigarro, o que lhe amarelecia os dentes e as unhas; talvez o alongar conversas em noitadas memoráveis em alguns bons restaurantes da cidade; talvez, ainda, o hábito de querer encontrar exatamente duas explicações para cada problema da vida : uma racional, que desse ordens de causa e efeito; outra, filosófica ou empírica, ou mesmo emocional, pela qual justificava pelo viés do destino, do transcendentalismo e coisas assim.
 
Ainda não se aposentara, mas estava quase para. 
 
Se alguém perguntasse “Você conhece o prof. Nicodemus?”, a meia-resposta viria, invariavelmente, com um “Ah, aquele que fala bem nas palestras?” Sim, porque Nicodemus era um excelente orador . Empolgava platéias com seus improvisos. E como recebia aplausos! Sabia amaciar o tom de voz no momento de ternura ou suspense; sabia, como ninguém, atroar com veemência quando o assunto pedia força, energia, pulso firme. E gesticulava na exata medida e intenção de cada frase, dita ora com os olhos fixos na platéia, ora tendo-os perdidos num ponto indefinido e superior do recinto. Magro, delgado, cabelos lisos e fartos, arranjá-los com seus dedos compridos causava certo frisson entre as mulheres. Socar a palma da mão esquerda com a mão direita fechada persuadia homens dos mais incrédulos.
 
Grande Nicodemus !
 
Planejou um curso de oratória e arranjou, lá, seus quase quarenta alunos. Afinal, cidade interiorana, poucos habitantes, para que alguém iria necessitar de oratória em Aroeira do Sul? Mas a presença de Nicodemus era inebriante e a oportunidade de aprender com ele a arte de falar em público não poderia ser, assim, desprezada...
 
O curso ia bem, com exceção de um de seus alunos, Calimério, dos mais tímidos, da voz mais trêmula e débil como nunca se houvera igual. Mas assíduo, atento, sempre o primeiro a levantar a mão para falar, tentando vencer a própria timidez. Nicodemus passou a ter-lhe atenção diferenciada, amiga, afetuosa, inspiradora.
 
Aí, o Nicodemus morreu. Morte, assim, de repente. O hebdomadário local comentaria, no domingo: “Parou de pulsar o coração de um homem culto e generoso. Aroeira do Sul está de luto.”
 
O velório teve lugar na capela da praça.
 
Velas, flores, suspiros... E o morto lá, esticado na horizontal mas digno em sua história. Um entra e sai de gente que vinha dar seu adeus ao homem mais admirado na pequena cidade.
 
Hora do enterro, aquele momento que antecede o fechar do caixão. Quem fala, quem não fala? Era preciso que alguém homenageasse o finado! Mas ninguém ousava; afinal, estava-se diante de quem tanto ensinara.
 
Timidamente, como sempre, Calimério adiantou-se, raspou a garganta, passou a mão pelos cabelos sugerindo um gesto já conhecido e tascou:
 
- Que momento ímpar estamos vivendo agora! 
 
Todos olharam incrédulos para aquele rapaz que gaguejava até para comprar algum confeito na padaria. Mas o ambiente era propício a se escutar, e não a falar. E deram ouvidos ao que Calimério dizia:
 
- Nosso querido professor Nicodemus parte para o sono eterno. Feliz dele, que não tem mais que aturar essa vida imprestável em Aroeira do Sul. Não mais suportará os conchavos vergonhosos que se exercitam na política desta cidade . Não mais se calará ante os descalabros que se permitem no comércio local. Homem recatado que era, não mais virará o rosto para as imorais infidelidades conjugais, em que se pratica o jogo da promiscuidade pensando que um comungar no final da semana e um sal de frutas apagam tudo...
 
Houve um incômodo geral. Ali estavam edis, prefeito, o padre, políticos, comerciantes, adúlteros. Mas como pedir aparte num discurso fúnebre, em pleno andamento do velório?
 
Calimério continuou... E colocou em desnudo todas as patifarias, o sombrio, o cavernoso, o perfil mais pérfido do coletivo social de Aroeira do Sul. Era como se tentasse polarizar a virtude, no morto, e o vício nos que ficavam. E ele, Calimério, o intermediador.
 
No fim, pediu o inusitado:
 
- Por tudo isto, senhoras e senhores aroenses, peço que aplaudam uma vez mais o único merecedor de tal homenagem Aplaudamos vigorosamente o nosso já saudoso professor Nicodemus!
 
Um começou a aplaudir timidamente, o outro acompanhou, mais um e, em segundos, todos os presentes aplaudiam e gritavam “Bravo”, “Muito bem”, “É isso aí!”... Mas não aplaudiam o morto, ou Calimério, ou o discurso proferido. O aplauso era uma farsa: era como se, em se aplaudindo, a pessoa estaria se redimindo dos pecados cometidos, ou se identificando como um homem de virtudes, confirmando o discurso de Calimério e condenando a todos os que haviam errado.
 
Colocou-se a tampa no caixão. Seguiu em frente o enterro. Os dias vieram se sucedendo em Aroeira do Sul. A viúva continuava estampar tristeza, mas com um estranho brilho no olhar, denunciando que algo no discurso de Calimério estava correto, principalmente no tocante às infidelidades conjugais.
 
Calimério caiu no esquecimento. Era preciso esquecê-lo, assim como ao seu discurso, já que ambos traziam a consciência viva e denunciadora dos pecados coletivos de Aroeira do Sul.
 
Certo dia Calimério partiu, instado por aprovação em concurso público numa localidade distante. A cidade sentiu-se aliviada. O padre rezou mais uma missa... E todos se sentiram perdoados.
 
“Vaidade das vaidades...”, lembra o salmo bíblico; este relato complementaria “Hipocrisia das hipocrisias...”
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos

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