A MINHA, a nossa

Por: Maria Luiza Salomão

“Com brasileiro não há quem possa...Eh eta esquadrão de ouro, é bom no samba, é bom ...” 
 
 
Cresci ouvindo o LP de 78 rotações, “até furar”, da Copa de 58, a primeira estrela das cinco, de “campeão de Copa do Mundo”, Brasil 5 x 2 na Suécia, que sediava a Copa, e aplaudiu de pé o nosso timão, apesar da derrota, no 29 de junho. Os nomes vêm em vagas e ressacas de memória: ...Vavá, Mané Garrincha, Pelé e Pepe. Se puxar a memória, será que me lembro dos outros? Mas é só chamar o meu irmão-sabe-tudo. 
 
Não acompanho as migrações dos jogadores, a evolução dos times, mal assisto aos jogos entre as Copas, mas na Copa do Mundo, vou pesquisar e me atualizo. Não decorei a escalação da nossa seleção, um time-bebê, nascente, inseguro, imaturo talvez, mas que vai criando laços, um coletivo, um corpo serpente-dragão, como as outras seleções, como aquela de 58 que inaugurou uma nova era para o futebol brasileiro.
 
Futebol é Arte, na coreografia dançarina dos jogadores dentro do campo, na capacidade que gera de querer interpretar tudo o que lá acontece - do milagre do gol à luta marcial sangrenta: com as câmeras de hoje, entendo por que um jogador é considerado herói. Sabe-se mais do país que está jogando contra o Brasil, do que se o visitássemos, em viagem turística. As cores dos países, as bandeiras e os hinos, os biótipos humanos dos jogadores, a amostragem geral da sua população. Sabe-se muito da vida em uma Copa do Mundo! Sem decoreba, brincando: todo mundo vira técnico, adivinho, decifrador de sinais: sofre e ri. Arte pura.
 
A Copa do Mundo me trouxe uma fome de ver todos os jogos. Além do que se gasta para sediar a Copa (uma coisa horrorosa!) e do que se ganha (e m turismo, etc., ainda bem!), há algo que contabilizo: a cultura que se ganha; o país-sede pode se metamorfosear na mentalidade - quando 32 países comparecem, trazendo apaixonados torcedores estrangeiros. 
 
Visitei Barcelona e Atlanta, cidades que sediaram jogos de outras Copas do Mundo e vi nelas um brilho diferente. Espero que as nossas cidades-sede: Porto Alegre, Manaus, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Cuiabá, Natal, Curitiba, Salvador, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro - retenham o brilho aceso pela Copa. O mundo viu um Brasil: e gostou. Será que brasileiro começará a gostar dos seus brasis? Mudaremos a mentalidade: o que é bom é apenas o que vem do estrangeiro? 
 
A Copa no Brasil pode não ser a “Copa das Copas” para o mundo todo, mas é a minha (não mais verei outra no meu país, com certeza). Não sei se vai dar Chi-chi-chi/ le-le-le ou Brasillllllll, hoje, 28 de junho. Mas chegou a hora de encher a copa com cidadania e auto-respeito, e tomar tudinho, até a ultima gota. 
 
Com ou sem mais uma estrela bordada na camisa canarinho, o Brasil redescobrirá o Brasil? 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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