De vazantes e preamares

Por: Eny Miranda

Na obra de Lya Luft, o tempo (“Die Zeit” - palavra feminina em alemão, conforme ela mesma observa) é tema recorrente. Nas Águas mansas de seu último livro, O tempo é um rio que corre, “Die Zeit” surge para a menina Lya sob a forma de uma velhinha, uma bruxa “instalada em todos os relógios [...], o tique-taque vinha de suas agulhas de metal fabricando os minutos do tempo que nos restava.” Esse mesmo tempo é tema também recorrente em minhas reflexões. Ele e seus desdobramentos. Essa bruxa tricoteira dos minutos que restavam ao tempo da menina Lya seria, então, paradoxalmente, assustadora e promissora, por fabricar continuadamente novos minutos sobre os perdidos, recompondo sempre a imensa colcha temporal. (A seu bel prazer?)
 
Mas, temos de convir, assim como o tempo não pode sozinho criar o ser ou um estado do ser, da mesma forma um ser, trabalhando sozinho, não pode criar o Tempo. Falando da virtude, na Ética a Nicômano, Aristóteles já dizia que “uma andorinha não faz verão, nem um dia tampouco; e da mesma forma um dia, ou um breve espaço de tempo, não faz um homem feliz e venturoso.” O que João Cabral de Melo Neto retoma, em Tecendo a Manhã: “Um galo sozinho não tece uma manhã:/ ele precisará sempre de outros galos.” 
 
Porque tira das mãos da bruxa a possibilidade de construir sozinha o Tempo, isso me acode e me conforta.
 
A lua vai se desenrolando, fazendo-se inteira a nossos olhos, e depois volta a se enrolar, urdindo outras fases, agora decrescentes, até quase sumir do alcance de nossa visão, para começar tudo de novo... O mar se contrai e se expande, vasto coração pulsando marés de vazante e preamar, tricotando o tempo, feito a velhinha do relógio, só que com todo o seu corpo se enredando nos fios líquidos que engendram esse tempo - mais amplo, lunar, cósmico. Pincéis com mil tons de verde vão passeando sobre folhas e relvas, seguidos de outros, em sucessão de amarelos, e vermelhos e ocres e marrons... e, então, outros pincéis vêm recompondo os verdes, em cortejo com os amarelos e vermelhos... e primaveras e verões e outonos e invernos vão se erguendo e se desfazendo em novas primaveras e verões... e até em outonos que trazem consigo “um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo [...] uma suspeita de inverno”. A Terra em torno do Sol roda e translada em horas e dias e meses e anos, entre fins originais e inícios terminais... 
 
Todos vão fazendo o Tempo, que, na verdade, é um imenso círculo mantido em movimento por muitas forças que o vão girando, da origem ao fim, que é nova origem, e de novo ao fim, que é... Como nós, bolhas pulsantes que se formam e se evaporam e sobem e se condensam e voltam a se formar e a pulsar, mare-ar, pre-amar...
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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