A Grande Beleza

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Céline foi um cara complicado e até hoje sua importância intelectual incomoda parte dos franceses. Médico, pouco clinicou na sua área, obstetrícia. Casado, abandonou mulher e filha e foi viver em outros países. Autor de textos anti-semitas durante os anos de ocupação, fugiu com a cambada do general Pétain quando a França foi libertada. Acusado de traição, viu-se condenado no pós-guerra, mas conseguiu voltar anos depois. Reabilitou-o a geração beat, a quem seu romance Viagem ao fim da noite falava diretamente, pelo estilo inovador que mesclava eufonia e grosserias verbais. Enfim, como Rimbaud, um autor maldito.
 
E por que começo falando do escritor Céline, se o título deste texto se refere ao filme do cineasta italiano Paolo Sorrentino? É que me parece haver vínculos entre o que um diretor pensa e o que escolhe destacar como epígrafe no seu filme. A Grande Beleza tem início com estas frases: “Viajar é muito útil, faz trabalhar a imaginação. O resto não passa de decepções e fadigas.” A sequência, não mencionada, talvez ampliasse o sentido: “A nossa viagem é inteiramente imaginária. Daí a sua força.” São palavras de Céline, pinçadas do romance acima referido, e por aí o filme pode ser visto: uma incursão por Roma, a partir de uma excursão por suas áreas visíveis.
 
E Roma são muitas: a histórica, que um dia foi a capital do maior dos impérios; a turística, invadida por hordas do mundo inteiro; a dos artistas renascentistas, presentes em cada metro quadrado; a de fisionomia urbana única, onde a arquitetura vem respeitando a natureza há séculos; a das escavações arqueológicas; a da pós-modernidade; a das exageradas festas; a da modesta família do subúrbio; a que deriva da intersecção de todos estes planos e é procurada pelos olhos nostálgicos do protagonista. Jap Gambardella (Toni Servillo), 65 anos, jornalista de renome, perfil sedutor, gosta de dar grandes festas. Parece haver se deitado na cama da fama quando escreveu, aos vinte e poucos anos, um livro de sucesso. O título, bastante reiterado, é O Aparelho Humano, considerado ‘uma das obras -primas da literatura italiana’. 
 
Constantemente questionado sobre o fato de não ter mais feito ficção, ele se angustia diante das cobranças para as quais não tem resposta. E vaga por Roma em busca da Grande Beleza, que segundo ele só é vista pelo ainda virgem olhar estrangeiro, capaz de apreender a arte imortal, universal, ali produzida durante séculos. O percurso que Jap cumpre, tentando resgatar para si esta beleza maiúscula, leva-o a carregar o espectador por ruas, praças, rio, pontes, esculturas, arquiteturas, museus, espaços emblemáticos, parques, jardins e tipos humanos muito próximos dos que mobilizaram a alma de outro cineasta de grande enverdadura: Federico Fellini. E tome Coliseu, Villa Borghese, Forum romano, Pallazo Sanatorium, Fontana di Trevi, aquedutos, centro histórico, Bramante, Bernini, Rafael...
 
Esse excesso de paisagem urbana, itinerário estético mostrado em cenas lentas, já levou a comentários que associam as imagens a peças turísticas. Mas essa é uma observação impertinente; toda a estrutura do filme nos conduz, pelo olhar nostálgico de Jap, à procura de um refazimento da cidade como lugar mítico. Sem êxito, caminha com seu sentimento de perda, numa busca que descortina cenas curiosas. Como as que mostram amigos nadando em alto mar; depois, banidos pelas lanchas, nas piscinas domésticas; ou então, em uma banheira com correnteza artificial. Um crítico italiano leu esta sequência como o símbolo da progressiva saída do comunitário rumo ao privado nas sociedades capitalistas, embora seja apenas um recorte que não encontra na narrativa outras ressonâncias que autorizem esta afirmação. 
 
 Sorrentino usa com muita frequência recursos para ampliar seus temas. Cria metáforas como a do encalhado Costa Concórdia na representação de um país imobilizado pela corrupção; hipérboles críticas à arte contemporânea como as que caracterizam a artista performática Maria Abramovic; pleonásticos minutos para os créditos finais, tendo como fundo os canais do Tibre, lugar onde nasceram Rômulo e Remo, fundadores da cidade. 
 
O filme é longo: 2h42’. Mas em sua maior parte deslumbra pelas imagens e faz refletir sobre a necessidade da criação de novos padrões para entender a cultura em nosso tempo, onde A Grande Beleza não diz mais nada às pessoas porque a força criativa que a produzia desapareceu. A menina que pressionada pelo pai é obrigada a atirar baldes de tinta sobre uma gigantesca tela em branco, diante de uma plateia de excêntricos marchands, resume esta ópera.
 
Como Céline, Sorrentino constrói sua narrativa do geral para o particular. Igual a ele, também está mergulhado num niilismo que grita o declínio de crenças e convicções com seus respectivos valores morais, éticos e estéticos.
 
 Há outras leituras possíveis, é evidente. Uma obra como A Grande Beleza não esgota as indagações que se fazem a seu respeito. É grande arte. 
 
 
UM PRÊMIO OSCAR
 
A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na cerimônia do Oscar, em março deste ano. O resultado já era esperado pela crítica.
 
O diretor agradeceu suas ‘fontes de inspiração’ ao receber o prêmio: o também italiano Federico Fellini (especialmente o de La Dolce Vita e Oito e Meio), assim como o diretor Martin Scorsese, a banda Talking Heads e o ex-jogador Diego Armando Maradona. De Fellini e Scorsese há evidentes traços no filme premiado; a banda, sabe-se ser uma preferência de muito tempo. Mas o nome do jogador argentino causou surpresa.
 
 Sorrentino fez questão de, num curto discurso, “agradecer a todos aqueles que trabalharam no filme, todos, do primeiro ao último. Foi um filme difícil, duro e cansativo, gravado quase sempre de noite, com temperaturas malucas.” E acrescentou: “Cada um de nós que trilha esse caminho sonha que um dia o próprio trabalho seja reconhecido e o Oscar é o ápice. Sonhar não custa e é uma atividade refrescante”. 
 
Paolo Sorrentino nasceu em Nápoles, em 31 de maio de 1970. Desde muito jovem interessado por cinema, fez uma série de curtas, atuando como roteirista, caminho trilhado por vários dos de sua geração. Seu primeiro longa foi A consequência do amor, que venceu vários prêmios e concorreu, em 2014, no famoso Festival de Cannes, à Palma de Ouro. Em 2008 Il divo alcançou grande sucesso em seu país. Em 2011 produziu This must be the place.
 
Responsável por colocar a Itália de novo no cenário do Oscar depois de 17 anos de ausência, ou seja, desde que Roberto Benigni levou o prêmio por A vida é bela, Paolo Sorrentino tem conquistado largos espaços na mídia para falar de sua arte.(SM)
 
 
Filme
 
Título: A Grande Beleza
Direção: Paolo Sorrentino
Atores:Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli
Gênero: Comédia , Drama
Nacionalidade: Itália , França
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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