A palavra afiada

Por: Laura Greenhalgh

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“Com certeza eu não quis ser como as outras mulheres, preferi me realizar como um homem. Não sei... Hoje fico pensando se não foi esse pecado de orgulho que moveu aquela geração feminina na faculdade.” A dona destas palavras, uma das grandes intelectuais brasileiras, certamente as proferiu com voz de contralto, dicção perfeita, beleza e arremate nas frases, sem contar a elegância que sempre a distinguiu. Não faria por menos Gilda de Mello e Souza ( 1919-2005 ), escritora, ensaísta, critica de arte, professora de estética e uma das primeiras mulheres a cursar, nos anos 1930, a recém-fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Pois a menina que saiu de Araraquara para se “cultivar” na cidade grande, e que viria a marcar a vida acadêmica no País, é o objetivo do livro A Palavra Afiada ( Ed. Ouro sobre Azul ), recentemente lançado. 
 
Organizado pela critica literária Walnice Nogueira Galvão, o livro recupera momentos raros, quase desconhecidos, da mulher que ousou se destacar numa geração de mentes brilhantes, contudo predominantemente masculina. Walnice estruturou o volume em três partes: na primeira, recupera nove entrevistas concedidas por Gilda, ao longo dos anos. Na segunda, reúne escritos e falas. Na terceira, entrega quase como um presente aos leitores a seleção de cartas de Gilda e Mario de Andrade (1893-1945), o primo mais velho , em casa de quem ela morou por longo tempo em São Paulo. Servidas em sequência, as três partes configuram um banquete de ideias, sensibilidades e erudição sem afetação.
 
Walnice justifica no prefácio por que terá ido atrás de uma Gilda em formato pingue-pongue, respondendo a pesquisadores, escritores ou jornalistas. Acha que nesses encontros é onde justamente se sobressai a “ palavra afiada “ de uma estudiosa que dominava, como poucos, a arte de conversar. “ Em sua voz, a entrevista torna-se um gênero literário, tal a perfeição de suas formulações. Seria perda nossa se essas joias permanecessem esquecidas nas páginas de publicações às vezes obscuras e difíceis de resgatar” , escreve Walnice, para quem Gilda concedeu uma das entrevistas do livro, em 1984. Dentre os entrevistadores, alinham-se também Eva Blay, Augusto Massi, Carlos Augusto Calil, Antonio Dimas, Nelson Aguilar. 
 
Alguns temas são recorrentes. Seus entrevistadores querem saber de sua origem interiorana, da transferência para a capital e da ousadia de se enfiar numa escola de filosofia moldada segundo padrões europeus, onde os cursos, ministrados em francês, estavam a cargo de intelectuais do calibre de Jean Maugüé, Roger Bastide, Claude Lévi- Strauss. Ao lidar com questões que já lhe soavam familiares, Gilda conseguia rever a mesma história da vida - não haveria outra para contar -, trançando reminiscências com os fios da originalidade. Há sempre um dado a mais, uma lembrança a mais, uma surpresa a mais em seu itinerário pessoal.
 
Mário de Andrade atravessa o livro numa grande diagonal. É presença marcante. Ele é quem dá aulas de piano à prima menor. Ele é quem lê, corrige e comenta os primeiros escritos da menina, quando as tias vêm lhe segredar que “ Gilda anda escrevendo”. Ele é quem a orienta a tentar uma vaga no curso de filosofia, se era mesmo desejo ser escritora, enfatizando que buscasse formação ampla, eclética, sofisticada, afinal, “ no fundo, o que vale é a arte”. Ele é quem abre para Gilda sua biblioteca no segundo andar da casa, permitindo que consultasse não só os livros, mas as fichas de leitura, as anotações. Além da gratidão impagável a Mário, Gilda se assume como beneficiaria dessa “ concepção aberta , totalmente dinâmica do oficio de pensar, uma crença profunda no exercício da inteligência”.
 
A Palavra Afiada traz opiniões de Gilda sobre diferentes aspectos da arte, revelando o pensamento crítico de alguém que sempre se pautou pelo concreto herança da infância em contato com a natureza, a observação tátil do mundo. E aí se encontra a pensadora arrojada, que décadas antes do filosofo francês Roland Barthes provou que a moda não era frufru, mas um sistema de signos marcando diferenças entre os sexos e barreiras de classe. O banquete de ideias prossegue no correr das paginas: Gilda explica por que considerava Machado de Assis um autor teatral menor, por que chegou a preferir Lygia Fagundes Telles a Clarice Lispector, por que vibrou com os experimentos do Teatro de Arena, por que buscava sutilezas no cinema de Visconti, quando era obrigatório buscar conexões políticas Ao brindar seus interlocutores com finíssimas análises estéticas , foi generosa e entregou coisa maior. Algo da ordem das fulgurações do espirito.
 
 
ENSAÍSTA
 
Gilda Mello e Souza foi professora de estética, ensaísta, crítica de arte na USP e referência para várias gerações de intelectuais brasileiros. Nasceu em São Paulo, em 1919, mas passou a infância numa fazenda da família, em Araraquara. Aos 11 anos voltou à capital para estudar e foi morar na casa da avó, onde encontrou um primo de segundo grau. E toda a sua trajetória poderia ser diferente não fosse o primo o músico, escritor e agitador cultural Mário de Andrade. Percebendo a garota muito interessada nos livros de sua biblioteca, ele assumiu papel de mentor.
 
A afinidade intelectual entre ambos abriu caminhos à jovem e lhe inspirou uma área de estudo. Anos mais tarde, ela se tornou especialista na obra do primo, o que resultou no livro O Tupi e o Alaúde: uma Interpretação de Macunaíma. Depois, e bem antes do semiólogo Roland Barthes dar ao assunto tratamento acadêmico em Système de la Mode (1967), Gilda publicou o ensaio que a tornou conhecida internacionalmente: O espírito das roupas, a moda do século XIX. Sobre este livro seminal, disse Walnice Nogueira Galvão, professora de Teoria Literária na USP que “ela tratou a moda como um conjunto de sinais. Como são sinais, eles permitem uma leitura. E essa leitura mostra como a indumentária é utilizada para levantar barreiras entre os sexos, as classes ou seja lá o que se possa imaginar.” O livro, de abordagem até então inédita, mostra a importância cultural da moda do século XIX, relacionando-a com outras manifestações como literatura, pintura, gravura e fotografia. 
 
O casamento com Antonio Cândido, o maior crítico literário brasileiro vivo, aconteceu em 1943, e o casal teve três filhas: Ana Luísa, Laura e Marina. 
 
Dona Gilda, como era carinhosamente chamada por seus alunos, aposentou-se em 1973. Em 1999, recebeu o título de professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Faleceu no Natal de 2005, aos 86 anos. (SM)
 
 
Livro
 
Título: A Palavra Afiada
Autora: Gilda de Mello e Souza 
Organização: Walnice Nogueira Galvão 
Editora: Ouro Sobre Azul 
Número de páginas:  264
Preço:  R$ 48
 
 
Laura Greenhalgh, jornalista

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