Viagem

Por: Eny Miranda

A luz do abajur projetava-se na parede escura, e os furinhos da cúpula acendiam estrelas no céu vertical. Sombras da cortina, que esvoaçava e roçava de leve essa cúpula vazada, eram nuvens, indo e vindo, vindo e indo... Encobrindo e desvelando aquele céu. Todos dormiam. Eu viajava. Atravessava a noite na quietude de uma nave que singra o tempo sem sair de seu espaço. Cruzeiros, marias, órions, prócions... passavam por mim, no aconchego de meu navio-leito. Pirilampos competiam com o cenário, flutuando seus trizes luminosos, seus pequenos flashes esverdeados, entre as estrelas e as nuvens. No céu de fora, astros distantes, em longas, infinitas rotas, observavam minha viagem.
 
De repente, o vento se torna mais forte, e as nuvens passam céleres sobre as estrelas. Mãos invisíveis arrancam as âncoras que alicerçam a casa/nave em seu porto, e ela flutua. Um cheiro de terra - soluço forte de vísceras secas revolvidas pelo vento súbito - me queima as narinas. Subimos num turbilhão de ar frio, que me arrepia a pele e canta em meus ouvidos uma espécie de assovio lamentoso. Parece que uns pingos amplos e raros, ainda incapazes de acordar pássaros sedentos, começam a ser lançados à volta. Um cometa passa por mim - clarão ferindo meus olhos e explodindo o ar, em ruído forte e surdo que logo se estilhaça e se desfaz. A lua e algumas estrelas acham graça de meu susto. O vento se torna francamente úmido, molhando minha pele, colando a roupa em meu corpo frio. 
 
A noite agora está estranha. Estrelas dão lugar a reticências. Nuvens rasgam seus ventres e despejam as líquidas entranhas no espaço escuro. Céu é água, vento é água. Tsunamis brotam do teto e das paredes (mas onde estão o teto e as paredes?). Uma arca de madeira passa ao meu lado, balançando e rangendo (Noé ou Caronte?). Cecília me acena do alto do Palácio dos Doges com seus vitrais escorridos de chuva - estremecidos “pássaros de cristal feridos pelo vento” -, suas escadarias cascateadas no aguaceiro copioso, e dentro, seus fantasmas vestidos de aço e veludo. Meninas de cabelos soltos e encharcados correm ao meu redor, puxando minhas roupas, descobrindo meu corpo, cada vez mais frio. Venezas de ponta-cabeça desfilam sob meus olhos fascinados e atônitos. Entre ventos cortantes, oceanos me envolvem e me incorporam. De repente me liquefaço. Agora, os ponteiros do tempo não conseguem mais se mover, ao peso de tanta água.
 
Morri? Sim, porque “como estar vivo, entre estes ventos,/ sob esta chuva”, neste oceano aéreo que me paralisa e me envolve corpo, sentidos e alma? Não morri? Mas como sair deste transe, que me enregela... e liquefaz, me assombra... e encanta? Como ser, outra vez, densa, corpórea? “Como ser mortal, novamente?”
 
Súbito, o baque. âncoras são relançadas e enraizadas em terra firme. A nave estaca, tornada ao porto.
 
Folhas molhadas e cacos de vidro espalhados no chão e na cama são as únicas testemunhas de minha insólita viagem.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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