Amor em dose dupla

Por: Farisa Moherdaui

Os momentos vividos por aquele casal foram sempre cercados pelo respeito, compreensão e ternura. Bastava um sorriso, um abraço para afastar qualquer dissabor. Mas precisou sim que algo tão simples e corriqueiro acontecesse para perturbar a harmonia da feliz vida a dois. Incrível, mas tudo porque naquela tarde adentrou pelo portão da casa aquele gatinho estranho, magro, feio, como que buscando aconchego.
 
Foi quando o coração da esposa bateu forte e condoído, enquanto que o esposo mesmo indiferente a gatos e outros bichos, mas em agrado à companheira, acabou por aceitar aquele “estranho no ninho”. Mas com o decorrer dos dias, o marido foi percebendo o gato muito à vontade na casa. A cama mais que macia, a ração especial, o leite suculento, banho duas vezes por semana e no pet shop, de onde o safadinho voltava cheiroso, pelo reluzente, laço de fita no pescoço. Um charme!
 
Mas coisa estranha parecia estar interferindo nos momentos de intimidade agora até menos frequentes entre o casal, porque lá no cantinho estava sempre o gato a acompanhar tudo, com os olhos arregalados, pelo eriçado, unhas afiadas como que pronto a arranhar. E a senhora achava uma gracinha.
 
Já cansado e até humilhado, o dono da casa esperou por um momento propício em que pudesse se livrar do intruso. A coleirinha foi colocada no pescoço do bichano e como se saíssem a passear foram para um lugar longe, bem longe, onde o gato foi solto e dali impossível encontrar o caminho de volta. E o gato não voltou.
 
Passado algum tempo, a mulher inconformada só chorava e chorava de fazer dó, achando que o bichano fora roubado, ou até estivesse perdido por algum caminho. Deixou de dormir, de comer, indiferente a tudo. O marido, coitado, ficou na saudade porque não teve mais carinho e muito menos a intimidade com a mulher querida que num desinteresse total entrou em profunda depressão. Ele, o maridão, só podia sonhar com a felicidade perdida e em sonhos via dois olhos verdes, arregalados, unhas afiadas, miados de alegria como que a zombar da desgraça alheia.
 
- E o casal, o gato, que fim levaram?
 
- Sei lá, ninguém sabe e ninguém viu.
 
 
Farisa Moherdaui, professora 

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