Prestação de contas

Por: José Borges da Silva

Foi numa noites dessas que eu sonhei que havia morrido. E fui não sei para onde. E cheguei como se já fosse velho conhecido do ambiente, dos presentes, embora restasse alguma incerteza de especificamente já haver encontrado algum deles antes.  Cheguei de repente a um lugar que jamais imaginara. Era como que um grande templo, mas construído de transparências. Mas logo percebi que ali não chegava só humanos. Os seres que lá estavam eram identificados por uma espécie de traços de personalidade. Eu logo divisei uma serpente e soube o que era porque lá as coisas eram assim: quem visse algo sabia o que era. E essa era uma espécie de onda luminosa. Depois divisei uma grande árvore. Era tênue, quase totalmente transparente, harmoniosa e tranquila. Vi alguns predadores – leões, onças, que tinham aspecto mais colorido, embora não parecessem mais ameaçadores – e caças, de aspecto mais luminoso e belo. O ambiente não possuía a relação do mundo tridimensional, com a noção de para cima, para baixo, altura, largura... Os seres se movimentavam em todas as direções. A comunicação prescindia de movimentos, como mover a língua, ou gesticular... Era de uma forma imanente. Os pensamentos eram públicos e todos podiam percebê-los e com eles interagir. Ao pensar em alguém havia o contato, e a comunicação se realizava. E tudo o que ali estava era alguém para a grande consciência universal imanente que a tudo abrangia, e que todos percebiam. Eu estava ali para uma espécie de prestação de contas. Não vi como às vezes cogitamos no nosso dia a dia, alguém como São Pedro ou semelhante, perguntando o que eu fizera de certo ou de errado. Mas como tudo que ali estava eu era transparente e todos sabiam tudo de mim. De modo que ao notar que não havia apenas humanos no ambiente, fui tomado de uma vergonha-arrependimento, de um sentimento de culpa por ter realizado, vida afora, atos que me pareceram incorretos, mas que não impedi que se completassem. Ninguém me ameaçava ou censurava. Eu mesmo é que me repreendia. E me veio uma dor imensa ao me lembrar da minha relação com o mundo em que até então vivera.  E fui entrando em desespero, um estado de aflição e de desolação mais profundos do que aquele que conhecemos dos revezes da vida. E acordei. E nunca me senti tão bem em acordar!
 
José Borges da Silva, procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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