Um novo tipo de funcionário

Por: Everton de Paula

Tempos bicudos esses que vivemos. Há indivíduos que estudam o ensino médio por completo, cursam uma faculdade, lançam-se a algum programa de pós-graduação e depois... Nada de emprego. Está certo que nossa candidata petista enxerga ao contrário e afirma de pés juntos que trabalho é o que mais há na realidade. Diz, mas é mentira.
 
Assim, é comum vermos um farmacêutico recém-formado ingressando numa esteira de fábrica de calçados, ou um engenheiro ocupando a vaga de auxiliar de contador, até mesmo médicos estafando-se em plantões e atendimentos de clínica geral. Parece que a qualificação acadêmica, a titulação por especificidades não tem levado, ao menos hodiernamente, a boas colocações no mercado de trabalho.
 
Curiosamente, tenho constatado uma situação contraditória. Ou seja, num cenário desses, o que vier é lucro, em prejuízo da qualidade. Seria de se pressupor que o candidato a uma vaga de trabalho não se desse ao luxo deste ou daquele pequeno detalhe; aceitaria o emprego já e já e se daria por satisfeito em face de ter concretizado o sonho de uma carteira profissional assinada.
 
Creia o leitor: tem aparecido um novo tipo de pretendente a funcionário que não vê exatamente assim as coisas.  Ouve com atenção as explicações do empregador, faz uma ou duas perguntas,  mas dificilmente indaga sobre a remuneração. E quando o empregador lhe explica as funções a serem exercidas, o provável futuro funcionário faz hoje outro cálculo, diferente da maioria do passado: ele não quer um trabalho muito bem remunerado, mas sim um trabalho que lhe possibilite contato maior com a família, consigo mesmo, com seus entretenimentos.
 
Interessante esse novo paradigma. Já há quem negue um salário de R$ 8 mil mensais quando este salário representa um estafante tempo integral e uma carga de responsabilidade bastante intensa. Já há quem prefira a metade dessa oferta para ter mais contato com seus filhos, seu cônjuge, seu lar, seus pequenos prazeres. Veja bem o leitor: estamos no início de uma nova era de negociações entre empregador e empregado – a procura por um trabalho que permita tempo para o empregador estar mais próximo dos seus. Não se trata de lei do menor esforço, mas sim de procura por trabalho conjugado a satisfação pessoal. 
 
Entenda-se: já existem nos Estados Unidos empresas que dispensam a presença física do funcionário nas suas instalações. O que essas empresas querem são resultados, eficácia e não só eficiência. A presença física deixa de ter boa parte de sua importância para ceder espaço a resultados, trabalhe o funcionário onde quer que queira.
 
Não é de se estranhar, notadamente numa época em que as instituições de ensino superior vêm se lançando, cada vez mais, no cenário do ensino a distância. Para que me deslocar ao campus universitário se posso assistir às aulas em meu próprio lar, pelos módulos on-line?
 
Mas há de se dizer: no caso do ensino a distância, perde-se muito em qualidade. Já no caso de um funcionário feliz, ganha-se muito em produção e qualidade, mesmo que o salário seja inferior ao daquele que tem de estar presente fisicamente numa das salas da empresa.
 
Você já ouviu falar em FIB? Pois é, trata-se de uma analogia ao PIB – Produto Interno Bruto, ou seja, a soma de toda a riqueza produzida por um país. Empresas de vanguarda, hoje, em lugar de uma espécie de PIB interno, programam o FIB – Felicidade Interna Bruta. Funcionário quanto mais satisfeito, melhor será o rendimento. Ao menos é o que ouço nos cursos que ministro em empresas, na área de motivação de funcionários, de marketing pessoal, de autoestima laboral. O foco é o contentamento do funcionário, pois em se o obtendo, tem-se por garantia não só a qualidade de produção como resultados quantitativos.
 
Se é uma onda passageira, não sei dizer, mas afirmo com toda convicção: apoio o funcionário que assim pensa e age, apoio a empresa que consegue identificar nesse procedimento um meio de aumentar as vendas.
 
Bons negócios a todos!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras