Já pra casa!

Por: Everton de Paula

Talvez se chamasse Evaristo. Ou Everaldo. Neto ou bisneto de italianos do Norte, loiros e reforçados. Um legítimo quebra-galhos, disposto a tudo, jardinar, carpir quintais, limpar caixas d’água, acabar com formigueiros.
 
Quatro filhos pequenos, saudáveis e um pouco sujinhos, de nariz escorrendo e pés no chão. A mulher, bonita, apesar do desgaste com tanta gente e tão pouco dinheiro.
 
O homem não exagerava, mas também não escondia dois sentimentos bem profundos – o amor pelos filhos e o ciúme da mulher.
 
De vez em quando ele sumia, e quando voltava, contava que tinha ido trabalhar em outra cidade, ali por perto, porque topava qualquer parada, desde que não lhe faltasse serviço.
 
Um dia ressurgiu, depois de sumiço maior.
 
- E aí, rapaz... Desapareceu... Tenho serviço pra você. Por onde andou?
 
- Nem queira saber. Um dia chego em casa pra almoçar e encontro panelas limpas, nenhum sinal de comida. As crianças, na creche ou na escola. Indago da vizinha mais próxima se não tinha visto minha mulher e recebo a resposta que me valeu por uma punhalada:
 
- Pra onde ela foi, não sei. Só sei que logo cedo apareceu um sujeito num fusquinha e ela subiu nele...
 
- O senhor nem imagina os dias de cão que passei. Fiquei entre a cruz e a espada. Não tinha mesmo nem quem tomasse conta das crianças, nem de mim. Cozinhava umas coisinhas, mas dar banho nelas, cuidar da roupa, pôr ordem em tudo – isso eu não sabia direito, nem tinha o tempo necessário. Precisava buscar trabalho, afinal. Tentei levar minha mãe lá pra casa, mas ela, que não se dava bem com minha mulher desde antes de nosso casamento, me disse que não podia, porque isso, porque aquilo, por puro despique na verdade. Suportei mal e mal aquela dureza por uns quinze, vinte dias. Depois me decidi e voltei indagar da vizinhança. Será que ninguém me dava notícia de minha mulher? Percebi olhares cruzados, vontade de falar, em umas pessoas; desejo de não se envolverem, em outras.
 
- Olhe, eu fiquei sabendo que o tal que veio atrás dela montou casa lá no fim da cidade, pros lados do distrito industrial – por fim deixou escapar uma, quem sabe mais corajosa, quem sabe mais invejosa.
 
Não era muito, mas era uma luz. Indaga daqui e dali, acabou descobrindo a casa deles. Ficou na moita um dia de domingo, desde manhã muito cedo. Quando o tal ladrão de mulher saiu, horas depois, criou coragem e foi rumo da casa, Bateu, bateu, até que foi atendido. Veio atender ela mesma, meio espantada, meio receosa, meio desenxabida com a presença do marido. Teve medo do que poderia acontecer ali. Ele entrou direto no assunto:
 
- Olha aqui, sua maluca. Então o que você fez pras crianças, pra mim, é papel de gente?
 
- Mas...
 
Ia, se ele deixasse, repisar com certeza as velhas queixas, o cansaço da triste lida da vida, o tédio... Ele atalhou, antes corajoso que ríspido:
 
- Não tem nem mas nem meio mas. Junta logo seus trecos e vamos pra casa, agora! Lá é que é seu lugar. Você tem muita obrigação.
 
A mulher, muito ressabiada, fez sua trouxinha, foram em silêncio pro ponto de ônibus circular.
 
Já em casa, foi rodeada, abraçada e acarinhada pelas crianças. Beijou-as, arrumou com os dedos o cabelo da menorzinha, endireitou os suspensórios de pano de um dos meninos, fez enfim um pequeno e mudo agrado a cada qual. Na cozinha, viu a montoeira de coisas por lavar e meteu logo mãos às obras, lágrimas nos olhos.
 
Não se tocou no assunto de sua deserção do lar. Ninguém pediu, ninguém deu explicações, nem se tem a menor garantia de que ela não repita o duro gesto de inconformidade com a pobreza, com a estreiteza de horizontes, com o fim dos sonhos.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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