Aída em Nova York

Por: Sônia Machiavelli

A temporada de Aída no Metropolitan Opera House encerrava-se em 7 de novembro, dois dias depois de nossa chegada em Nova York. Tinha sido com esforço que meu filho Junior havia conseguido os ingressos, mesmo antecipando a compra pela Internet. Mas valeram a pena tanto o empenho como a correria na noite gelada daquela sexta-feira. Sentados com amigos na quarta fila de uma das três maiores casas de ópera do mundo, acompanhamos hipnotizados a história das paixões devastadoras cantadas por Marcelo Giordani, Olga Borodina, Liudymila Monastyrsca, Zeljco Luçic, Soloman Howard e Dmitri Bellosselsky. 
 
Avaliando o número de pessoas presentes, e informada de que o público prestigia as apresentações todas as noites, de setembro a maio, imaginei a força desta arte que surgiu na Itália no início do século XVII para definir as peças de teatro musical cujas origens mais remotas se encontram na tragédia grega. Combinando canto coral e solo, recitativo e balé em um espetáculo encenado, toda ópera se ergue em sofisticada construção. Por isso na etimologia italiana de seu nome encontra-se o significado de obra.
 
Não conhecia o Metropolitan. Sua arquitetura grandiosa em mármore branco e o aconchegante interior de estofados vermelhos me impressionaram. Parte do Centro de Performances Artísticas Lincoln Center, o Met é a maior organização do gênero dos Estados Unidos e apresenta anualmente 27 óperas diferentes. Estas obedecem a um repertório rotativo e no impresso que recebi à entrada junto com o libreto (de Antonio Ghislanzoni) já se anunciava para a semana seguinte O Barbeiro de Sevilha. De Rossini. 
 
Aída, como todos sabem, é de Verdi. O New York Times, no seu caderno de Cultura, anunciou-a na estreia como “a grande ópera em seu mais grandioso momento.” No triângulo amoroso mítico do compositor, Liudmyla Monastyrska, soprano ucraniana, é Aída, a escrava etíope; Olga Borodina, mezzo soprano russa, é Amneris, a princesa egípcia; Marcelo Giordani, tenor italiano, o guerreiro Radamés. A voz (baixo) do faraó é do americano Soloman Howard; a de Amonasro, rei etíope e pai de Aída, de Zeljko Luçic, barítono de origem ucraniana; a (baixo) do sacerdote Ramfis, do russo Dmitry Belosselskiy. Na regência, Marco Armiliato.
 
Que história é essa que se conta e se canta com talento vocal e dramatúrgico, em cenário espetacular, e nos deixa em transe silencioso, olhos e ouvidos acurados para que nenhum detalhe se perca? Contam-se e cantam-se o arrebatamento, o fragor e o poder destrutivo das paixões. No fulgor da corte egípcia, Amneris, a filha do faraó, apaixona-se pelo general Radamés. Mas ele já entregou seu coração à Aída, que também é nobre, mas de origem etíope. No momento em que eclode o drama ela está prisioneira do faraó e transformada em criada de sua filha. Como já se disse há séculos só os deuses conhecem a fúria de uma mulher desprezada. Frustrada em seu intento de seduzir o guerreiro, a poderosa Amneris cria uma situação equívoca que o torna inimigo de sua pátria e condenado à morte por traição. Se ele não pode ser dela, que não seja de Aída. O final é trágico. Aída acompanha Radamés no pagamento da pena e deixa-se emparedar junto a ele. As palavras finais são de Amneris, pedindo aos céus que a morte lhe chegue breve e alivie seus tomentos, neles incluído o remorso.
 
Narrar paixões qualquer folhetim consegue. A maioria das novelas de televisão mostra isso com frequência. O palco sempre as expôs em milhares de peças. Bem mais de mil canções foram compostas a partir do tema. E mais da metade de toda a filmografia do mundo exibe personagens apaixonadas. Estamos em todos esses casos no âmbito das palavras e imagens. No gênero operístico, cabe essencialmente às vozes moduladas transmitir sentimentos de amor e ódio, de ciúme e raiva, de hipocrisia e sinceridade, de vingança e culpa, de submissão ao destino e desafio às circunstâncias, de dúvidas e incertezas diante da constante reconfiguração da vida. Em Aída, a voz do faraó denota poder; a do sacerdote, mistério; a do rei etíope, indignação e aliciamento em momentos distintos. E só para pinçar um último exemplo, no segundo ato, no confronto de Aída e Amneris perfiladas enfim como rivais, as vozes de Olga Borodina e Liudmyla Monastirska parecem carregadas de tal eletricidade que é como se o cenário corresse risco de se incendiar: puro duelo de paixões. É lindo, comovente, sublime. É grande arte que resiste porque fala ao público sobre sentimentos, esses que nos distinguem na face da Terra como humanos e são os mesmos que acometem o nobre e o plebeu, o homem e a mulher, o pós-jurássico e o pós-moderno. Mudamos nada nesse aspecto ao longo de nossa histórica caminhada até aqui. Quando o físico Stephen Hawking nos fala do perigo que corre a Humanidade diante dos avanços da Robótica, me ocorre que toda arte, e a ópera é uma delas, pode ser espaço estético onde identificar, resgatar, avaliar, compreender , valorizar  - e sentir!- a vasta gama de emoções que, variáveis como os timbres das vozes, singularizam o homem, espécie terráquea ameaçada de extinção pelas máquinas, segundo o autor de O universo numa casca de noz.
 
Em tempo. Aída é uma das óperas mais executadas no mundo, ao lado da Carmem (Bizet), de La Bohème (Puccini), de A Flauta Mágica ( Mozart), da Cavaleria Rusticana ( Mascagni) e da já citada O Barbeiro de Sevilha.
 
 
Giuseppe Verdi
 
Quando se fala na ópera Aída, ouve-se com frequência alusão ao fato de que Verdi (1813-1901) a compôs para a inauguração da Casa de Ópera do Cairo, uma das obras que fizeram parte do conjunto de outras erguidas para festejar a abertura do Canal de Suez, em 1869. Biógrafos desmentem a informação e dizem que, apesar de realmente convidado para tal, Verdi não aceitou de imediato a incumbência. Mas no ano seguinte, inspirado por história que ouvira de egípcios, e que pertencia ao rol das contadas de uma geração a outra nas camadas populares, pôs-se a trabalhar na composição de Aída, uma das 28 óperas que o imortalizaram. Entre elas estão títulos bem conhecidos, como La Traviata, Otello, MacBeth, Falstaff. E Rigoleto, pois quem nunca ouviu alguma vez esses versos - “La donna è mobile/ qual piuma al vento/ muda di accento/ e di pensier?” 
 
Por mais breve que seja a leitura de alguma das inúmeras biografias deste artista, nota-se que seu imenso talento para a música manifestou-se precocemente, e que a luta contra as adversidades foi uma constante em sua existência. Nascido numa família de pequenos comerciantes, em lugarejo próximo à fronteira italiana com a França, teve de se mudar para um centro maior a fim de poder estudar. Aos vinte anos chegou a Milão. Casou-se cedo, teve dois filhos que morreram bebês, a mulher faleceu aos 27 anos. Sentindo-se culpado por não ter dado atenção devida aos três, pois estava sempre muito envolvido com suas composições, pensou em abandonar a música. Mas se apaixonou por uma soprano em fim de carreira, Giuseppina Streponi, e foi viver com ela, o que suscitou escândalo e provocou afastamento social. Ao final deste período de muito sofrimento, por volta de 1842, Verdi criou uma de suas obras-primas, Nabucco, que atiçou a imaginação do povo. O enredo, que relata os conflitos entre assírios e judeus, exerceu uma função especular para os italianos que lutavam contra a opressão austríaca. Verdi triunfava. Ao morrer, em 1901, alcançara a difícil unanimidade. No seu funeral, as melhores orquestras e coros do país, reunidos sob a batuta do célebre Arturo Toscanini, representaram um dos grandes momentos da Itália moderna, quer pela união de forças, quer pela emoção revelada. (SM)
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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