Para o ano

Por: José Borges da Silva

O ano de 1977 chegava ao fim. Na última semana de trabalho eu formava dupla com o Serafim, um sujeito simples e muito trabalhador, oriundo do norte de Minas. Instalávamos telefones no grande ABCD - Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema - região metropolitana de São Paulo. Éramos recebidos com grande alegria pelas famílias dos bairros mais afastados, há anos aguardando a instalação dos telefones comprados a prestações. Quando eu batia palmas em frente à residência, com o aparelho novinho debaixo do braço, o Serafim já estava esticando a escada na parede, procurando pela tubulação de entrada da fiação, ou conferindo a caixinha de ligação da linha no poste mais próximo. Dava gosto ver a alegria das pessoas. Até as crianças queriam ver o aparelho de perto. Naquele tempo não havia ainda tanta insegurança, mesmo na Grande São Paulo. Um de nós cuidava da instalação interna, enquanto o outro da externa. A regra era que os componentes das duplas se revezassem no trabalho interno, que era tido como mais técnico. O externo, que compreendia manejar a escada de madeira de duas partes corrediças, era mais rude, exigia mais força. O Serafim sempre preferia o trabalho de rua. Dizia que não gostava do contato com as famílias, que preferia ficar do lado de fora. Era um sujeito muito arredio, que pouco falava ou saía do alojamento. Isso fazia com que fosse alvo de certa desconfiança. Eu, que fazia parte de um grupo de estudantes da Escola Técnica Industrial Dr. Júlio Cardoso de Franca, formando em Eletrotécnica, estava na empresa de telefonia para cumprir o estágio do curso técnico. Mas havia os empregados da empresa que estavam lá para cuidar da subsistência das famílias. O Serafim era um destes, embora fosse bastante jovem ainda.
 
Eu pouco conhecia o Serafim, porque o meu parceiro de trabalho era um amigo de Franca, que viajara para casa uns dias antes, assim como o parceiro dele. Aproveitando um momento em que acabáramos uma instalação, enquanto aguardávamos o veículo que nos levaria até outra residência para o serviço, resolvi puxar conversa. De saída comentei que já estava com saudades da minha casa, que naquele ano visitara poucas vezes. E perguntei se ele pretendia voltar para casa também. Foi então que o Serafim se abriu, com sotaque carregado: “Rapaz, para o ano eu vou em casa sim, se Deus quiser. Não é pra agora não. Ainda não tenho dinheiro que dê... Eu tenho três filhos, não sabe? Uma beleza, moço! E eu não quero que cresçam longe de mim não. Eu sou pai de verdade, tu vê? Só vim para aqui porque a gente tava passando fome... Mas, para o ano eu volto!”
 
Ao final daquele ano voltei para casa e nunca mais soube do Serafim. Mas, quando vai terminando o ano, quase sempre me lembro dele e do nosso breve colóquio, naquele já longínquo ano de 1977!
 
 
José Borges da Silva , procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 

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