Discípulos

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De longe, avisto o corretor Ronan, aninhado num banco solitário da Praça Barão. Retardo minha ida à Padaria Pão Nosso, aproximo-me, puxo conversa com o amigo.
 
- Cadê o povo da praça, Ronan?
 
-Deve estar viajando, ou dormindo. Você sabe, ontem foi feriado, hoje o comércio só abre depois do meio-dia...
 
- Então, hoje corretor tá de folga.
 
- Nem fale. Começo de ano é dureza. Você sabe como é: ninguém compra, ninguém vende. Parece até que o Brasil só começa mesmo depois do Carnaval.
 
Então, por que você não aproveita e vai passear lá em São Tomás de Aquino?
 
- Ah, eu estava aqui pensando... Se eu vendesse uma fazenda bem grande, ganhasse uma corretagem bem gorda, eu ia era conhecer outras terras, ia conhecer Portugal, a Europa inteira. Ia gastar dinheiro por esse mundo a fora.
 
- Indo para esses lugares, você só iria passar raiva e jogar dinheiro fora.
 
- Mas eu sempre tive vontade de conhecer Portugal.
 
- Pra quê? Pra tropeçar em burradas?  Além disso, português é o povo mais gabola que existe, só sabe contar vantagem, sabia?
 
Não, nunca ouvi falar disso.
 
- Mas é. Você não aguentaria dois dias por lá, escutando português se vangloriando, dizendo que foram eles que inventaram o para-brisa do automóvel.
 
- E isso é verdade?
 
- Parece que é. Ao que tudo indica, o único mérito do Henry Ford foi ter aperfeiçoado a invenção, colocando o para-brisa do lado de fora.
 
- É, mas eu podia conhecer outros lugares famosos.
 
- Pra quê?  Pra passar raiva, vá lá pra Fazenda Limeira mesmo, onde você nasceu. Já imaginou você gastando dinheiro em hotel caríssimo e só pra ficar uma semana inteira sem pregar o olho?
 
- Uma semana sem dormir?
 
- É, sem dormir. Você não sabe por que a cidade de Praga tem esse nome? 
 
- Não.
 
- É por causa da praga de pernilongo que ataca o lugar todo mês. Por isso é que lá tem fama de ser a cidade da Europa com vida noturna mais intensa. Só podia ser mesmo, pois ninguém consegue dormir lá.
 
- Mas deve ter lugares...
 
- Só se você quiser comprar imagem do Buda. Você já ouviu a história do cearense que ganhou na loteria e  foi passear no exterior? Em cada lugar que chegava, comprava uma lembrancinha. Chegou numa cidade onde só tinha estatueta do Buda. Comprou uma. Quando chegou ao hotel, viu que lhe tinham vendido um objeto defeituoso: o Buda não parava  sentado. Voltou ao mercado, para trocar a estatueta por outra, Mas, como ninguém entendia o seu “ô xente”, o seu “cabra da peste”, e ele não entendia a língua enrolada dos barbudos, ficou uma tarde inteira xingando: “Buda da peste, ô xente”. Fez tanto barulho, arrumou tanta confusão que, até hoje, o povo de lá se lembra do cearense, e a cidade ficou conhecida como Budapeste.
 
- Nossa, como é que você aprendeu tudo isso? Você já viajou praquelas bandas?
 
- Ah, quem me dera. Até hoje só viajei para Delfinópolis, e olhe lá. É que eu leio muito, sabe. Tenho um dicionário para pesquisa: Dicionário de Etimologia.
 
- Etimologia?
 
´- É. Ele ensina a origem das palavras, o que elas significam.
 
- Ah, taí uma coisa que eu queria ter. Qualquer hora vou lá na sua casa pra você me ensinar o significado do meu nome.
 
- Você quer saber o que significa Ronan?
 
-- É, eu quero saber de onde veio o meu nome.
 
- Já sei, já procurei no dicionário.
 
- Já?
 
- Sim. Ronan é nome de uma frutinha que só dá na China. É uma fruta miudinha, parece pitanga verde. Não serve pra nada, mas tem gente lá que a usa pra fazer um chá muito azedo. Bebem pra curar ressaca.
 
Deixo os olhos arregalados do Ronan na praça vazia, vou pra padaria, contar mais lorotas pro amigo Régis, outro discípulo meu.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

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