Os enjoados

Por: Everton de Paula

Lecionar em período noturno de cursos universitários vira sempre oportunidade de ouro na ampliação do conhecimento humano.
 
Para começar, numa sala bem frequentada há cinquenta, sessenta alunos que podem, ao final do ano, nem saber o nome da maioria dos colegas e também de alguns de seus professores: vêm de dez ou mais cidades, chegam quando muito em cima da hora, se não depois da hora; saem apressados logo depois da hora, se não antes da hora. O convívio com os colegas do próprio curso é mínimo. Dos outros cursos, então... E assim se perde um dos pilares da formação cultural diversificada, objetivo primordial das universidades.
 
Ao lado dos jovens em flor, no auge da beleza primaveril, sentam-se outros não tão jovens, não tão aquinhoados. Sentam-se também os muito cansados de todas as idades, que antes de vir para a escola já enfrentaram todas as durezas do dia, quando menos oito horas, fora a viagem, alguns trabalhando o tempo todo de pé, mesmo que não tenham a quem servir. Balconistas e vendedoras se queixam muito disso, da insensibilidade dos patrões que as querem o tempo todo faceiras, risonhas, dispostas como se tivessem saído de uma banheira repleta de leite de égua – muito bom para a pele, pensa-se desde os tempos de Cleópatra. E não lhes dão nem cadeira para um breve repouso.
 
Ao lado das moças descansadas, de bem com a vida, descobrindo o amor e suas tramas, estão aquelas outras, casadas, solteiras ou separadas, mas suficientemente escaldadas na dura lição: tudo cansa, tudo enjoa.
 
Essa desanimadora verdade, que só deveria ser do conhecimento de velhos pais, de velhas mães, de calejados avós, está chegando cada vez mais cedo a legiões de pessoas que precisam desdobrar o tempo, algumas com tarefas até nos sábados e domingos, fazer malabarismos com o dinheiro curto, com os embates das relações interpessoais, com as incertezas da educação dos filhos.
 
Quando via nas minhas aulas homens e mulheres de fisionomias fatigadas, pouco interessados nas inevitáveis abstrações que fundamentam nossas explanações discursivas, ficava pensando na vontade que eles deviam ter de tornar pública uma face triste do mundo real:
 
- Você aí, coleguinha de generosa beleza; você aí, rapagão que nem precisa trabalhar para estudar: meus caros, vão com menos sede ao pote porque tudo enjoa.
 
Longe dos embalos das sextas e dos sábados à noite, afastados dos programas das tardes de domingo e das delícias de qualquer dia de gloriosa juventude, eles devem ansiar por ficar em casa, sozinhos, em silêncio, sem TV, sem som, descalços e com os pés para cima.
 
Faço um parêntese: talvez estes fatos possam ser fatores do sucesso do ensino a distância. 
 
Mas volto ao foco.
 
Esses estudantes um pouquinho só mais velhos, mas já tão cansados,  já ouviram sons demais – dos abusados carros de propaganda, das músicas bregas, das reclamações dos fregueses, do vozerio incontrolável dos alunos cada vez mais indóceis. Isso se não forem também participantes das discórdias familiares – os filhos exigindo mais do pai e da mãe; a mulher braba com o marido e vice-versa; os irmãos em contendas entre si, numa disputa que se sabe terrível: dois do mesmo sangue que se rivalizam e se enfrentam podem ser mais encarniçados que dois inimigos jurados de morte.
 
Essas pessoas, tão exigidas pela vida, estão enjoadas de qualquer som, de qualquer música. A barulheira do despertador-celular incomoda, assim como o latido noturno do cachorro boêmio. Mesmo o canto de início tão apreciado do sabiá madrugador quando prenuncia a primavera. Tudo enjoa, até As Quatro Estações, de Vivaldi.
 
Alguns andam tão estressados de trabalhos, preocupações de toda ordem, dificuldades financeiras, que já não podem aspirar por som mais notável que o do silêncio.
 
Nem só de sons os desgastados enjoam. Também das comidas. Há quanto tempo não dizem coisas simples como “que comida deliciosa” porque não comem com vagares, porque nada saboreiam, porque vivem sob o império do sanduíche, do quebra-galho do almoço de meia hora, do lanche nos intervalos das aulas. Sua referência gastronômica não vai muito além do salgadinho exposto nos ensebados mostruários de vidro de qualquer cantina.
 
Devem também estar enjoados de cheiros. E, Deus do céu, como as coisas cheiram! Os livros cheiram, as ruas cheiram, os ônibus escolares cheiram muito. As próprias casas não podem ficar por algum tempo trancadas porque inevitavelmente em poucos dias ganham um enjoativo cheiro de... casas trancadas!
 
Quando lecionei na universidade, vi, assim, tantas pessoas que me davam a clara idéia de estarem enjoadas de tudo, de todos mesmo. Até de moças e rapazes bonitos.
 
Já se passaram poucos anos, mas ainda escrevo estas coisas todas com uma ponta de enjoo próprio.
 
Há muitas lembranças boas do meu tempo de magistério superior, mas este pequeno detalhe me faz questionar se ainda as coisas não são como eram antes. E me dói aqui dentro este cenário. Como me doía  antes.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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